Eu, o Mateus e o Quinteto Armorial

By Antonio Nóbrega | 12 setembro 2017 | Sem Comentários

Foi no fim de tarde de um domingo na Casa de Cultura de Recife, assistindo pela primeira vez uma apresentação de um Bumba-meu-boi e acompanhando deslumbrado a movimentação da figura de um Mateus, que despertei para dança. Aquela burlesca personagem teatral vestida com calça e camisa de chita, de pés descalços, segurando uma espécie de bastão ou baliza com fitas multicores amarradas numa das suas extremidades, dançando, gesticulando, faceciando, mugangando, galhofando ali bem à minha frente, me deixava completamente aturdido, desconcertado, hipnotizado…e com uma incontrolável vontade de fazer aquilo que ele fazia…

Tinha 19 anos nessa ocasião e alguns meses atrás havia sido convidado por Ariano Suassuna para integrar o Quinteto Armorial. Ariano me assistira tocando o concerto de Mi M de Bach para violino numa apresentação que fizera na Igreja de São Pedro dos Clérigos, local de habituais concertos na cidade, e achara que eu era a pessoa talhada para o posto. Ora, quem seria eu para negar-lhe tal convicção?…

Só alguns anos depois é que compreendi que aquele convite representara a senha, o passaporte de entrada para um mundo, até àquela época, inteiramente desconhecido para mim. Esse convite mudaria lenta e indelevelmente não só o meu modo de praticar e fazer arte, como a minha maneira de ver e pensar o Brasil e o mundo.

Àquela ocasião fazia o primeiro ano do curso de Direito e mantinha estudos formais de música e violino, mas, nem me sentia especialmente vocacionado para as lides jurídicas, nem tampouco achava que dedicar 5, 6 horas de estudo por dia ao violino seria uma atividade que preenchesse integralmente a minha curiosidade e interesses artísticos. Gostava imensamente de ler e escrever e idealizava fazer diplomacia…. Portanto, aquele convite vinha em boa hora.

O primeiro ensaio do Quinteto aconteceu na casa de Ariano. Ali, na sala de visitas de sua casa, no bairro de Casa Forte em Recife, dispusemos nossas estantes de música, colocamos a partitura da música Repente do Antonio José Madureira e, lentamente, sob olhar curioso e atento de Ariano, começamos a tentar traduzir em sons o que aquelas folhas de papel nos indicava. Durante vários anos repetiríamos esse rito. Ali nos encontraríamos para ensaiar as músicas compostas para o grupo por Antonio José Madureira – quem dirigia o Quinteto e seu principal compositor – Generino Luna, Jarbas Maciel, Capiba, Egydio Vieira e por mim. Em verdade, o grupo nasceu como um quarteto formado por uma viola dedilhada, executada pelo Madureira; um violão, pelo Edilson Eulálio; uma flauta, inicialmente tocada pelo Generino Luna e depois sucessivamente pelo Guebinha – José Tavares de Amorim –, Egydio Vieira e, por ultimo, Antonio Fernandes de Farias, vulgo “Pintassilgo”; eu alternava a execução do violino tradicional com a sua versão popular, a rabeca. Não demoraria muito para que um quinto instrumento, o Marimbau, entrasse em cena. Para quem não o conhece trata-se de uma versão um pouco mais completa do que o Berimbau, pois enquanto esse é basicamente um instrumento rítmico – muito embora instaure um campo harmônico quando tocado, em virtude das duas notas, geralmente intervaladas numa segunda maior, tiradas da corda de aço por meio da movimentação da moeda sobre ela – o marimbau permite a execução de uma escala diatônica completa. Não precisarei descrevê-lo, a foto anexa irá fazê-lo melhor que eu.

(…)

Antonio Nóbrega

O texto “Eu e as Danças Populares” compõe o livro Com Passo Sincopado – Em busca de uma linguagem brasileira de dança de Antonio Nóbrega. Conheça o projeto contemplado pelo Prêmio Funarte de Dança Klauss Vianna 2014: http://bit.ly/PassoSincopado





Discografia de Antonio Nóbrega pode ser encontrada na loja Tratore

By Antonio Nóbrega | 6 setembro 2017 | Sem Comentários

Parceria com a maior distribuidora independente do Brasil permite que CDs e DVDs sejam adquiridos pela internet

Os CDs e DVDs lançados pelo artista Antonio Nóbrega nos últimos vinte anos estão disponíveis para compra, em parceria com a Tratore – maior distribuidora independente do Brasil. O relançamento atende a uma demanda do próprio público, que tinha dificuldades em encontrar o material nas grandes lojas. Agora é possível adquirir a discografia de Nóbrega pela internet, a partir do site do próprio artista e da plataforma da distribuidora (links no fim do texto).

Na lista de trabalhos que o público já encontra estão discos emblemáticos para a carreira de Nóbrega, como Na Pancada do Ganzá, de 1996. O CD reúne canções referenciadas nas pesquisas de Mário de Andrade, trabalhos autorais e de outros compositores, numa bela homenagem ao autor de Macunaíma. Lançado no ano seguinte, Madeira que Cupim não Rói também está entre os relançamentos, com uma Coletânea de frevos, cocos, maracatus e peças instrumentais.

Além dos dois primeiros trabalhos, o público é brindado com os CDs Pernambuco Falando para o Mundo (1998), que traz composições de artistas pernambucanos e do próprio Nóbrega. Completam a lista de relançamentos O Marco do meio-dia (2001), que nasceu do espetáculo de mesmo nome; Lunário Perpétuo (2002 – também disponível em DVD), inspirado na obra literária que se tornou referência essencial para poetas populares do Nordeste e a série Nove de Frevereiro (2005 – também disponível em DVD), composta por dois álbuns em homenagem ao frevo.

Todo o material já estava disponível em formato digital lojas online como iTunes e Google Play e serviços de streaming como Spotify e Deezer (links no fim do texto). O relançamento também para compra física reforça o processo de preservação de um trabalho marcado pelo cuidado com as manifestações populares brasileiras, realizado por um artista que se dedica à pesquisa, ao estudo à manutenção dessa cultura.

 

SOBRE ANTONIO NÓBREGA

Nascido em Recife, começou a estudar violino aos 8 anos. Em 1971, Ariano Suassuna convidou-o para integrar o Quinteto Armorial. A partir daí, passou a estudar o universo da cultura popular e a criar espetáculos de teatro, dança e música nela referenciados. Entre eles: Brincante, Segundas Histórias, O Marco do Meio Dia, Figural, Na Pancada do Ganzá, Madeira Que Cupim Não Rói, Pernambuco Falando para o Mundo, Lunário Perpétuo, Nove de Frevereiro, Naturalmente, Húmus, entre outros. Recebeu diversos prêmios, entre eles o Shell de Teatro, o Tim de Música, APCA, Mambembe, Conrado Wessel, Governador do Estado de São Paulo.

Com seus espetáculos, o artista tem viajado pelo Brasil e outros países. Recebeu duas vezes a Comenda do Mérito Cultural. Tem 12 CDs gravados e três DVDs. Em novembro de 1992, fundou com Rosane Almeida – atriz, bailarina e sua esposa – o Instituto Brincante, em São Paulo. Em 2014, o cineasta Walter Carvalho realizou o longa-metragem Brincante, dedicado à sua trajetória artística.

 

SERVIÇO
Para adquirir as obras de Antonio Nóbrega visite:
http://antonionobrega.com.br/site/discografia/
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Instituto Brincante, Universidade de Princeton e UFRJ realizam jornada sobre as manifestações populares brasileiras

By Antonio Nóbrega | 17 agosto 2017 | Sem Comentários

Fazer Pensar Brasil reúne pesquisadores das três instituições. Evento está marcado para 25/08.

Estudiosos de diferentes partes do Brasil se reúnem no dia 25 de agosto no Teatro Brincante para a jornada Fazer Pensar Brasil. Com uma série de palestras e rodas de conversas, a iniciativa é uma parceria entre o Instituto Brincante, a Universidade de Princeton e a Universidade Federal do Rio de Janeiro. A discussão gira em torno das manifestações chamadas de populares, a partir de experiências e disciplinas diversas.

O tema ganha sentido especial na atualidade e proporciona a amplitude necessária para o debate. Afinal, os valores, conteúdos e formas do que se identifica como popular podem ser ressignificados e terem papel e função social no mundo em que vivemos? Na encruzilhada histórica por que passamos, trata-se de pensar coletivamente uma questão já velha, mas que nos pede novas configurações: podemos ser modernos e “populares” ao mesmo tempo?

A lista de palestrantes inclui Pedro Meira Monteiro, Antonio Nóbrega, Ricardo Teperman, Paulo Iumatti, Lilia Schwarcz, José Miguel Wisnik, Heloisa Buarque de Hollanda, Lira Neto, Rosane Almeida, Maurício Hoelz, Paulo Dias, André Botelho e André Ricardo Heráclio do Rêgo.

 

Programação:

9h30 – 11h30 – mesa 1: Desafios e missões: o mundo além da escrita (mediação: Antonio Nóbrega)
Pedro Meira Monteiro
André Botelho
Maurício Hoelz
Lilia Moritz Schwarcz

11h50 – 12h30 – Atividade com Rosane Almeida

14h00 – 16h – Mesa 2: Escuta e política nos Brasis (mediação: Pedro Meira Monteiro)
Heloísa Buarque de Hollanda 
Ricardo Teperman 
José Miguel Wisnik 
André Ricardo Heráclio do Rêgo

16h20 – 18h20 – Mesa 3: Batuque, samba e poesia (mediação: André Botelho)
Antonio Nóbrega 
Paulo Teixeira Iumatti 
Paulo Dias 
Lira Neto

18h20 – 19h – Encerramento
Antonio Nóbrega 
André Botelho
Pedro Meira Monteiro

 

Palestras

“Questão de mais-Brasil menos-Brasil”: brasilidade além do nacionalismo em Mário de Andrade
André Botelho
Brasilidade, identidade nacional e nacionalismo não são termos intercambiáveis no léxico de Mário de Andrade, e talvez também noutros autores modernistas. São categorias sem dúvida relacionais, pois ganham significados uma em relação às outras, mas não são exatamente equivalentes. Podem, antes, assumir não apenas significados diferentes, como sentidos distintos no próprio interior do projeto modernista de Mário e em relação às diferentes conjunturas do seu contexto social e intelectual. Buscar distinguir essas categorias e qualificá-las do ponto de vista do autor constitui tarefa premente e tão mais importante à medida que se trata de restituir a complexidade própria da obra de Mário de Andrade, e de seu contexto original, ambos extremamente disciplinados pela rotinização de paradigmas normativos e teleológicos voltados à discussão da formação da identidade nacional e do nacionalismo cultural no Brasil moderno. A restituição da complexidade dessas categorias e de seu inter-relacionamento mais dinâmico e contingente é, ademais, condição para que se possa divisar outros sentidos mais contemporâneos na obra de Mário de Andrade. Nesta apresentação, permanecerei nos limites dos prefácios não publicados de Macunaíma e no diálogo epistolar com Alceu Amoroso Lima em torno deles, bem como na crítica pioneira que este publicou, inclusive pelo seu papel decisivo nos termos da recepção que o principal livro do autor acabaria conhecendo, tão importante para os problemas de que então nos ocupamos.  

O sertão no imaginário brasileiro
André Ricardo Heráclio do Rêgo
Trata-se de fazer um breve apanhado da ideia, da representação dos sertões ao longo da história, do século XV até hoje, sobretudo no que se refere ao imaginário brasileiro, mas sem esquecer o português e o africano. A ideia de sertões é essencial na discussão da identidade nacional (se é que podemos ainda utilizar esse termo num contexto tão multicultural quanto o nosso), e ela tem uma de suas mais fortes expressões e repercussões justamente no mundo da cultura popular (se é que podemos ainda utilizar esse termo…). Mas não só: ela repercute fortemente na cultura dita erudita, seja na área de ficção, seja na na ensaística, seja na música, seja na literatura, seja na história, seja na geografia. O fio condutor, ou o fio da meada, quem o dará, como não poderia deixar de ser, serão Ariano Suassuna e João  Guimarães Rosa, sobretudo este último, quando ele disse:  “Sendo o sertão assim – que não se podia conhecer, indo e vindo enorme, sem começo, feito um soturno mar, mas que punha à praia o condão de inesperadas coisas”; “Quase todo o mundo tinha medo do sertão, sem saberem nem o que o sertão é”.

Uma poética para o Brasil
Antonio Nóbrega
Por onde conversam e ainda mais poderiam conversar os Brasis.

Fracassos e escuta na Universidade das Quebradas
Heloisa Buarque de Hollanda
Nesta apresentação, vou me permitir falar em primeira pessoa. Não definiria esta opção como um testemunho, mas como um relato simples dos impasses epistemológicos e da procura de uma perspectiva de intervenção, enquanto intelectual ligada à universidade pública, cuja trajetória profissional é inaugurada no espanto da descoberta e na escuta do outro. Hoje a tradução cultural, a alteridade, a diferença, enfim o encontro, ou mesmo embate, com o outro são questões que povoam nossas preocupações teóricas e políticas, sem dúvida, urgentes neste momento de crescentes e implacáveis xenofobias e intolerâncias. É desse ponto de vista que apresentarei o Laboratório de Tecnologias Sociais, chamado Universidade das Quebradas, criado em 2009, na UFRJ. A missão deste laboratório é a de articular professores, pesquisadores e alunos da universidade com os intelectuais, artistas, ativistas e produtores culturais das periferias, já com um trabalho relativamente consolidado, e experimentar formas de produção de conhecimento compartilhada. O encontro de saberes de pesos e níveis de legitimação diferenciados traz, de início, medo e perplexidade. As diferenças tornam-se mais contrastadas e o não reconhecimento deste percalço é fatal. Os repertórios acadêmicos diante do saber vernacular ou popular comportam-se mal. Ou os atores acadêmicos facilitam seu conhecimento subestimando a capacidade de escuta dos atores periféricos, ou supervalorizam a produção das periferias, considerada mais forte porque vem da “experiência verdadeira”, ante a uma possível carência de informação ou conhecimento empírico dos processos expressos na produção científica lato sensu. Por outro lado, os atores das periferias se intimidam, de forma surpreendente e mesmo inesperada, ao se conectarem com este novo território. Difícil evitar armadilhas. A tradução cultural é falha em ambos os casos. O compromisso com o exercício de uma escuta forte parece uma saída razoável.  

A influência deletéria do urbanismo
José Miguel Wisnik
Se Mário de Andrade resguarda a música popular autêntica, a certa altura do Ensaio sobre a música brasileira, da “influência deletéria do urbanismo”, isto é, do mercado e da influência estrangeira, colocam-se algumas questões difíceis sobre a natureza do popular. Será este, necessariamente, a manifestação de comunidades rurais, de caráter anônimo e coletivo, manifestado epifanicamente, em certos momentos, por indivíduos que carregam em si o grupo, ao serem carregados por ele? Qual seria então o lugar do popular na música popular urbana que floresceu com o mercado industrial de canções gravadas? É notável, a esse respeito, que Mário não tenha voltado a sua atenção, em nenhum momento, para seu contemporâneo Noel Rosa, embora acompanhasse com atenção os lançamentos de música popular gravada. Vai nessa omissão sintomática uma forma mental, de fundo estético (os românticos alemães) e religioso (a aura popular como sendo o espírito de um mundo sem espírito no raiar da universalização da mercadoria). Embora o tempo seja curto para isso, interessaria perseguir sinais dessa questão filosófico-religiosa (e política) nas fagulhas de um atrito entre Ariano Suassuna e Caetano Veloso.

Lima Barreto e seus subúrbios
Lilia Schwarcz
Pode-se dizer que Lima Barreto escreveu uma literatura em trânsito. Ele tomava todos os dias o trem da central e da sua janela observava arquiteturas, personagens, tipos e passageiros. O afeto que guardava por seus subúrbios, diante das práticas populares que via, era imenso. Afeto como identificação e mudança diante do que se observava.

A gênese do samba: entre a festa e a agonia 
Lira Neto
Como o moderno samba urbano, criação coletiva nascida em meio aos espaços de comunidades negras na virada do século XIX para o século XX, praticado nos fundos dos quintais pobres e alheio aos modernos conceitos de autoria, passou à condição de um dos símbolos máximos de uma suposta “identidade nacional”?

Na pancada do ganzá: um livro de amor inacabado
Maurício Hoelz
A primeira linha do prefácio do inacabado Na pancada do ganzá, de Mário de Andrade – cujo subtítulo é “Subsídios para conhecimento da vida popular brasileira, especialmente do Nordeste” –, afirma ser esse não um livro de ciência, mas um “livro de amor”. Nele, está em jogo compreender a cultura popular por meio da empatia (“Ouvi o povo, aceitei o povo”), substituindo o discurso sobre ela por um diálogo com ela que pudesse levar ao reconhecimento dos seus portadores sociais em sua dignidade e alteridade plenas – sem recair numa visão fetichizada e triunfalista da autenticidade popular -, e a formas mais descentradas, plurais e inclusivas de identidades coletivas. Nesse gesto de abertura para a diferença (“um ato de amor”) residiria a potência democrática de transformação das relações sociais pelo exercício da solidariedade, que tem no diálogo a forma mais absoluta de conhecimento da alteridade étnica e cultural. Nas suas próprias palavras, no prefácio: “Do fundo das imperfeições de tudo quanto o povo faz, vem uma força, uma necessidade que, em arte, equivale ao que é a fé em religião. Isso é que pode mudar o pouso das montanhas”.

A fumaça que sobe dos nossos quintais
Paulo Dias
Sugestionado pela frase acima, tirada de um jongo do compositor paulistano Daniel Reverendo, pretendo conversar sobre os batuques de terreiro do sudeste, sua ancestralidade e atualidade, no retraçar permanente das conexões simbólicas e sociais dos grupos celebrantes.

Utopia e absurdo no Brasil contemporâneo: reflexões a partir dos folhetos de cordel
Paulo Teixeira Iumatti
O gênero cordelístico do Marco atualiza o antigo paradigma da poesia como monumento perene, baseando-se na afirmação desafiadora de uma excelência poética insuperável. Surgido no âmbito da cantoria no século XIX, e transposto para a escrita dos folhetos de cordel, ele parece constituir em si mesmo um paradoxo, podendo ser visto, também, como instrumento de disputas envolvendo a reiteração ou a contestação de um lugar subordinado (social, racial, simbólico). Apresentando-se como um intrincado enigma, o Marco foi utilizado e resignificado por cantadores, poetas e intelectuais ao longo do século XX, oscilando entre os registros do utópico e do absurdo. Em nossa comunicação, discutiremos sentidos e apropriações do Marco em diferentes contextos, e suas possíveis derivações para a compreensão dos dilemas do país no mundo contemporâneo.

“Não é pra ouvir, é pra gente se deixar ouvir”: a liturgia do canto, de Mário de Andrade a Alfredo Bosi
Pedro Meira Monteiro
Entre o transe místico e o êxtase coletivo desenrolam-se algumas das práticas tidas por populares, fundando aquilo que, de Mário de Andrade a Alfredo Bosi, identifica-se a uma liturgia da comunidade. Tal serviço, entoado pelo povo, coloca a comunidade diante de seu sentido transcendente, a um só tempo distante e próximo, mas feito tangível pelo canto. A pergunta que nos guia, neste caso, recai sobre o papel do indivíduo na revelação dos impulsos e da verdade do grupo. Quem é aquela pessoa que, de repente, parece carregar a voz da comunidade e é por ela carregada?

Paratodos, para os pobres, pra ninguém
Ricardo Teperman
A ideia do “fim da canção” diagnostica o esgotamento do grande projeto modernista de construção de uma cultura brasileira “para todos”, que orientou a bossa-nova, o tropicalismo e boa parte dos vários desdobramentos da MPB a partir dos anos 1970. O rap apresentado pelos Racionais MCs na virada dos anos 1990 representou uma grande novidade na medida em que era feito dos “pobres para os pobres” , desprezando tanto a ideia de povo por trás da letra P, de popular, como a ideia de nação encerrada no B de Brasil. Ao anunciarem a “reforma agrária na música popular brasileira”, adotando procedimentos estéticos e mercadológicos consagrados na tradição hegemônica da MPB, Emicida e Criolo propõem incluir a navalha de Mano Brown no prestigioso retrato feito pela rolleyflex de Caetano e Chico. É um gesto que tem lhes garantido enorme aceitação de público e crítica, mas que também tem decorrências cujo impacto ainda está por ser avaliado – entre os riscos que correm estão notadamente a diluição da verve crítica e a relativa perda de capacidade de representação das camadas mais pobres e marginalizadas.

Atividade com Rosane Almeida
Nossa Ciranda
Iremos dançar uma boa e velha ciranda.
Vamos usar esse momento para descansar a cabeça e deixar o corpo encontrar seus caminhos e nos levar para um novo ambiente físico e sonoro.
Vamos aproveitar  alguns princípios recorrentes das manifestações populares para construir a nossa ciranda.

 

SERVIÇO
Fazer Pensar Brasil
25/08 das 9h às 19h 
Instituto Brincante
ENTRADA FRANCA
Sujeito à Lotação
Pré-inscrição: http://bit.ly/FazerPensarBrasil
Informações: http://bit.ly/FazerPensarBrasil_Eevento
Mediação: Antonio Nóbrega (Instituto Brincante), Pedro Meira Monteiro (Princeton) e André Botelho (UFRJ) 
Realização: Instituto Brincante, Princeton University e UFRJ
Produção Geral: Silas Redondo

 

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Numa Asa Delta

By Antonio Nóbrega | 11 agosto 2017 | Sem Comentários

“E se me fatiga bastante, pela sua precariedade contemporânea, afirmar que o povo brasileiro é formado das três correntes: portuguesa, africana e ameríndia, sempre é comovente verificar que apenas essas três bases étnicas o povo celebra secularmente em suas danças dramáticas”.

Mário de Andrade. In Danças Dramáticas do Brasil

Imagine-se, leitor, numa manhã ensolarada, radiante, planando numa asa delta. Imagine, ainda, que repentinamente descortinasse um imenso vale onde no leito de suas encostas avistasse, movendo-se quase imperceptivelmente, um longo e caudaloso tapete marcado por indiscerníveis pontos coloridos e faiscantes…

Suponhamos que essa visão o deslumbrasse de tal jeito que, tomado pela curiosidade, baixasse a altitude do “aeroplano” e descobrisse que aquele curioso coruscante cardume movimentando-se correspondia a milhares de pessoas caminhando em compassivo cortejo. Intensamente atraído, resolvesse baixar ainda mais seu planador e percebesse que os integrantes do caudaloso cortejo trajavam luzidias e multicores vestimentas, dos mais diversos formatos, alindadas por uma miríade de adereços. Uns vestiam saiotes de cetim e de ganga adornados por barras de espiguilhas douradas; outros envergavam guarda-peitos acetinados, cobertos de espelhos e debruados de galões prateados; outros mais usavam saias brancas rendadas; alguns portavam mantos-gola com desenhos de florais e pássaros bordados à canutilhos e miçangas; vários encabeçavam chapéu com a aba frontal, “batida”, revestida de pequenos pedaços de espelhos e flores de ouropel, enquanto da aba de trás, estirada, pendiam fitas de variadas e brilhantes cores; alguns mais ostentavam sobre a cabeça simulacros de templos e pagodes orientais profusamente ornados de espelhos, papéis brilhantes e pedrinhas de aljôfar; vários deles, de rostos tisnados de carvão e encabeçando chapéus-cafuringa,  empunhavam bexigas infladas e corriam de um lado para o outro as esbordoando em si e nos demais; centenas deles tocavam tambores, caracaxás, gonguês, pandeiros, cavaquinhos, violas, violinos, clarinetas, saxofones, pifes, flautas, acordeons e inúmeros outros instrumentos.

Imagine ainda, leitor, que querendo decifrar o sentido daquela movimentação, da algaravia dos trajes, buscando entender a mixórdia sonora que quase inaudível lhe chegava, se decidisse dar largas à irrefreável curiosidade e estacionasse sua asa delta na extremidade do vale, para onde se dirigia o cortejo, e, assim bem de pertinho, poder melhor perceber o que cantavam, dançavam e tocavam aqueles “festeiros”.

Seria então nesse momento, caro leitor, que perceberia que todo aquele imenso cortejo correspondia à reunião de centenas de grupos de pessoas que trajando cada qual vestimentas comuns, se locomoviam cantando, tocando, saltando, girando, requebrando, saracoteando, mogangando, gingando, volteando em meio a traçados e manobras coreográficas que iam desenhando pelo gramado do vale enquanto deambulavam.

Caminhando ao encontro do imenso préstito e aproximando-se das encostas do vale, o leitor amigo e corajoso, perceberia também que o som que emanava dos tambores, dos demais instrumentos e das vozes ecoava por toda a região e que, à medida que o cortejo se aproximava, o volume sonoro recrudescia perigosamente.… Não tardaria e o meu amigo teria de escolher entre evadir-se ou se entregar à festiva comitiva!

Se ele for como eu, deixará ser arrastado, conduzido e acicatado pela sincopada pulsação rítmica dos tambores, taróis, ganzás, pandeiros e a prodigalidade dos cantos; sairá “da sua” e entrará, pulando, cantando, brincando e chorando “na de todos aqueles outros”, o território sensorial e emotivo onde se encontravam imersos, naquela manhã   ensolarada e radiante, numa férica comunhão com o espírito da festa, da alegria e do congraçamento humano, aqueles homens e mulheres.

 

Em São Cristóvão

O mês é o de Janeiro e o ano, se bem me recordo, é o de 1980. Agora sou eu quem estou sob a guarda de uma manhã, também tinindo de brilhosa, no meio de uma das ruas centrais da cidade de São Cristóvão, na rabeira de um grupo de Bacamarteiros. A música é marcadamente percussiva, vexada, de ritmo bem soletrado, contínua e cantada à toda garganta e pulmões por homens e mulheres em idades diversas que caminham dançando, saltitando e portando à tiracolo – não todos – bacamartes. Atrás de mim, numa movimentação menos agitada, mais ondulada e compassada, integrantes de um grupo de São Gonçalo “tiram” loas, toadas e tocam violas, cavaquinhos e leve percussão. Para além desses dois grupos, para onde o meu olhar se dirige encontra músicos, dançarinos, cantadores, personagens e figuras teatrais das mais variadas espécies e natureza – reis, rainhas, bois, “mortos-carregando-os-vivos”, burrinhas, catirinas, cazumbás, caboclinhos, etc.

O Festival Folclórico de São Cristóvão era um daqueles eventos anuais – com alguma frequência eventos semelhantes aconteciam também em outras cidades brasileiras – que reuniam uma infinidade de grupos “folclóricos” de várias regiões do país. Lá estariam muitos daqueles que o meu hipotético leitor-planador terá visto em seu imaginário passeio aéreo…

Foi numa dessas ocasiões, que percebendo – mesmo com o pouco siso que me sobrava em tais circunstâncias, ou por isso mesmo – a diversidade e unidade de procedimentos, formas, conteúdos e estruturas que subjaziam no interior daquelas manifestações, que dei corda a mim mesmo na empreitada de buscar entender como elas se constituíram. Dizendo de outro modo: foi dentro daquele redemoinho dionisíaco que me impus a tarefe de tentar “desenredar” os caminhos através dos quais tais manifestações vieram a se tornar o que eram!

 

Por onde começar?

Foi sem abdicar de continuar a bater canela por terreiros, sedes de agremiações, treinos, sambadas e apresentações de grupos populares que encetei comigo mesmo a tarefa de também me abancar em gabinete.

Atinei que, passados já vários anos assimilando cantos, danças, histórias, formas poéticas, maneiras de tocar instrumentos musicais e modos de “brincar” dos mestres, dançadores e brincantes populares; lendo e continuamente adquirindo livros sobre o mundo popular, chegara o momento de tentar responder a questões que adensando cada vez mais o meu portfólio interior me martelavam o juízo. Seria o mundo popular tão caótico quanto aparentava, ou nós é que não o compreendíamos? Porque as “brincadeiras” populares que assistia e praticava me davam a impressão de serem tão iguais e ao mesmo tempo tão diferentes? E se assim fosse, eu saberia identificar e separar as diferenças das semelhanças? Por que a figura do Boi estava presente nos folguedos amazônicos, nos nordestinos, nos sulinos, em todas as regiões do Brasil? De onde provinha tudo isso? Como se formara um Reisado, um grupo de Caboclinhos? Haveria algum cordão, uma linha histórica por meio da qual eu poderia estabelecer uma ligação entre as várias manifestações populares entre si? Como se formatara esse imaginário? De que maneira ele teria se internalizado na psique coletiva do povo? Teria? E sendo afirmativa a resposta, quais os desdobramentos dessa internalização? Haveria?

Acompanhando a movimentação dos Caboclos de Lança de um maracatu rural, me perguntava: “Quais os caminhos que teriam levado a se ‘formatar’ àquelas portentosas figuras que incorporadas por trabalhadores rurais – vestindo pesadas golas-mantos a estampar desenhos de flores, animais, arabescos e espirais bordados à miçangas, canutilhos e lantejoulas; sustentando sobre os ombros matulão do qual pendiam 4, 5, 6 ou mais badalos de metal; maneando e volteando para cima, para baixo, para os lados  uma enorme lança de quase dois metros inteiramente ataviada de fitas; portando sobre a cabeça um imenso “chapéu” adornado por milhares de tiras de papel celofane ou laminado; – dançando, pulando, saltando, caminhando jornadeiam pelas ruas de Recife e de cidades da zona da mata pernambucana durante os dias de carnaval? Que representam?

Onde estaria o fulcro histórico por onde tudo isso estava se passando? Porque o conhecemos tão mal e de modo tão apartado do conjunto de nossa história cultural? Assim como, lendo e estudando obras dedicadas à trajetória da cultura ocidental podemos tomar conhecimento em sua totalidade dos caminhos percorridos pela sua literatura, música, pintura, etc., julgo que deveríamos igualmente, em relação à nossa história cultural, poder acessar uma narrativa que levasse em conta as duas grandes vertentes que a constituem: a popular, de prevalente extração índio-africano-ibericopopular e a ocidental ou europeia de base greco-latina-judaico-bárbaro-cristã.

Antonio Nóbrega

 

O texto “Numa Asa Delta” compõe o livro Com Passo Sincopado – Em busca de uma linguagem brasileira de dança de Antonio Nóbrega. Conheça o projeto contemplado pelo Prêmio Funarte de Dança Klauss Vianna 2014: http://bit.ly/2hiAaco

 





Instituto Brincante, Universidade de Princeton e UFRJ realizam jornada sobre as manifestações populares brasileiras

By Antonio Nóbrega | 10 agosto 2017 | Sem Comentários

Fazer Pensar Brasil reúne pesquisadores das três instituições.
Evento está marcado para 25/08.

Estudiosos de diferentes partes do Brasil se reúnem no dia 25 de agosto no Teatro Brincante para a jornada Fazer Pensar Brasil. Com uma série de palestras e rodas de conversas, a iniciativa é uma parceria entre o Instituto Brincante, a Universidade de Princeton e a Universidade Federal do Rio de Janeiro. A discussão gira em torno das manifestações chamadas de populares, a partir de experiências e disciplinas diversas.

O tema ganha sentido especial na atualidade e proporciona a amplitude necessária para o debate. Afinal, os valores, conteúdos e formas do que se identifica como popular podem ser ressignificados e terem papel e função social no mundo em que vivemos? Na encruzilhada histórica por que passamos, trata-se de pensar coletivamente uma questão já velha, mas que nos pede novas configurações: podemos ser modernos e “populares” ao mesmo tempo?

A lista de palestrantes inclui Pedro Meira Monteiro, Antonio Nóbrega, Ricardo Teperman, Paulo Iumatti, Lilia Schwarcz, José Miguel Wisnik, Heloisa Buarque de Hollanda, Lira Neto, Rosane Almeida, Maurício Hoelz, Paulo Dias, André Botelho e André Ricardo Heráclio do Rêgo.

 

Programação:

9h30 – 11h30 – mesa 1: Desafios e missões: o mundo além da escrita (mediação: Antonio Nóbrega)
Pedro Meira Monteiro
André Botelho
Maurício Hoelz
Lilia Moritz Schwarcz

11h50 – 12h30 – Atividade com Rosane Almeida

14h00 – 16h – Mesa 2: Escuta e política nos Brasis (mediação: Pedro Meira Monteiro)
Heloísa Buarque de Hollanda
Ricardo Teperman
José Miguel Wisnik
André Ricardo Heráclio do Rêgo

16h20 – 18h20 – Mesa 3: Batuque, samba e poesia (mediação: André Botelho)
Antonio Nóbrega
Paulo Teixeira Iumatti
Paulo Dias
Lira Neto

18h20 – 19h – Encerramento
Antonio Nóbrega
André Botelho
Pedro Meira Monteiro

 

Palestras

“Questão de mais-Brasil menos-Brasil”: brasilidade além do nacionalismo em Mário de Andrade
André Botelho
Brasilidade, identidade nacional e nacionalismo não são termos intercambiáveis no léxico de Mário de Andrade, e talvez também noutros autores modernistas. São categorias sem dúvida relacionais, pois ganham significados uma em relação às outras, mas não são exatamente equivalentes. Podem, antes, assumir não apenas significados diferentes, como sentidos distintos no próprio interior do projeto modernista de Mário e em relação às diferentes conjunturas do seu contexto social e intelectual. Buscar distinguir essas categorias e qualificá-las do ponto de vista do autor constitui tarefa premente e tão mais importante à medida que se trata de restituir a complexidade própria da obra de Mário de Andrade, e de seu contexto original, ambos extremamente disciplinados pela rotinização de paradigmas normativos e teleológicos voltados à discussão da formação da identidade nacional e do nacionalismo cultural no Brasil moderno. A restituição da complexidade dessas categorias e de seu inter-relacionamento mais dinâmico e contingente é, ademais, condição para que se possa divisar outros sentidos mais contemporâneos na obra de Mário de Andrade. Nesta apresentação, permanecerei nos limites dos prefácios não publicados de Macunaíma e no diálogo epistolar com Alceu Amoroso Lima em torno deles, bem como na crítica pioneira que este publicou, inclusive pelo seu papel decisivo nos termos da recepção que o principal livro do autor acabaria conhecendo, tão importante para os problemas de que então nos ocupamos.  

O sertão no imaginário brasileiro
André Ricardo Heráclio do Rêgo
Trata-se de fazer um breve apanhado da ideia, da representação dos sertões ao longo da história, do século XV até hoje, sobretudo no que se refere ao imaginário brasileiro, mas sem esquecer o português e o africano. A ideia de sertões é essencial na discussão da identidade nacional (se é que podemos ainda utilizar esse termo num contexto tão multicultural quanto o nosso), e ela tem uma de suas mais fortes expressões e repercussões justamente no mundo da cultura popular (se é que podemos ainda utilizar esse termo…). Mas não só: ela repercute fortemente na cultura dita erudita, seja na área de ficção, seja na na ensaística, seja na música, seja na literatura, seja na história, seja na geografia. O fio condutor, ou o fio da meada, quem o dará, como não poderia deixar de ser, serão Ariano Suassuna e João  Guimarães Rosa, sobretudo este último, quando ele disse:  “Sendo o sertão assim – que não se podia conhecer, indo e vindo enorme, sem começo, feito um soturno mar, mas que punha à praia o condão de inesperadas coisas”; “Quase todo o mundo tinha medo do sertão, sem saberem nem o que o sertão é”.

Uma poética para o Brasil
Antonio Nóbrega
Por onde conversam e ainda mais poderiam conversar os Brasis.

Fracassos e escuta na Universidade das Quebradas
Heloisa Buarque de Hollanda
Nesta apresentação, vou me permitir falar em primeira pessoa. Não definiria esta opção como um testemunho, mas como um relato simples dos impasses epistemológicos e da procura de uma perspectiva de intervenção, enquanto intelectual ligada à universidade pública, cuja trajetória profissional é inaugurada no espanto da descoberta e na escuta do outro. Hoje a tradução cultural, a alteridade, a diferença, enfim o encontro, ou mesmo embate, com o outro são questões que povoam nossas preocupações teóricas e políticas, sem dúvida, urgentes neste momento de crescentes e implacáveis xenofobias e intolerâncias. É desse ponto de vista que apresentarei o Laboratório de Tecnologias Sociais, chamado Universidade das Quebradas, criado em 2009, na UFRJ. A missão deste laboratório é a de articular professores, pesquisadores e alunos da universidade com os intelectuais, artistas, ativistas e produtores culturais das periferias, já com um trabalho relativamente consolidado, e experimentar formas de produção de conhecimento compartilhada. O encontro de saberes de pesos e níveis de legitimação diferenciados traz, de início, medo e perplexidade. As diferenças tornam-se mais contrastadas e o não reconhecimento deste percalço é fatal. Os repertórios acadêmicos diante do saber vernacular ou popular comportam-se mal. Ou os atores acadêmicos facilitam seu conhecimento subestimando a capacidade de escuta dos atores periféricos, ou supervalorizam a produção das periferias, considerada mais forte porque vem da “experiência verdadeira”, ante a uma possível carência de informação ou conhecimento empírico dos processos expressos na produção científica lato sensu. Por outro lado, os atores das periferias se intimidam, de forma surpreendente e mesmo inesperada, ao se conectarem com este novo território. Difícil evitar armadilhas. A tradução cultural é falha em ambos os casos. O compromisso com o exercício de uma escuta forte parece uma saída razoável.  

A influência deletéria do urbanismo
José Miguel Wisnik
Se Mário de Andrade resguarda a música popular autêntica, a certa altura do Ensaio sobre a música brasileira, da “influência deletéria do urbanismo”, isto é, do mercado e da influência estrangeira, colocam-se algumas questões difíceis sobre a natureza do popular. Será este, necessariamente, a manifestação de comunidades rurais, de caráter anônimo e coletivo, manifestado epifanicamente, em certos momentos, por indivíduos que carregam em si o grupo, ao serem carregados por ele? Qual seria então o lugar do popular na música popular urbana que floresceu com o mercado industrial de canções gravadas? É notável, a esse respeito, que Mário não tenha voltado a sua atenção, em nenhum momento, para seu contemporâneo Noel Rosa, embora acompanhasse com atenção os lançamentos de música popular gravada. Vai nessa omissão sintomática uma forma mental, de fundo estético (os românticos alemães) e religioso (a aura popular como sendo o espírito de um mundo sem espírito no raiar da universalização da mercadoria). Embora o tempo seja curto para isso, interessaria perseguir sinais dessa questão filosófico-religiosa (e política) nas fagulhas de um atrito entre Ariano Suassuna e Caetano Veloso.

Lima Barreto e seus subúrbios
Lilia Schwarcz
Pode-se dizer que Lima Barreto escreveu uma literatura em trânsito. Ele tomava todos os dias o trem da central e da sua janela observava arquiteturas, personagens, tipos e passageiros. O afeto que guardava por seus subúrbios, diante das práticas populares que via, era imenso. Afeto como identificação e mudança diante do que se observava.

A gênese do samba: entre a festa e a agonia
Lira Neto
Como o moderno samba urbano, criação coletiva nascida em meio aos espaços de comunidades negras na virada do século XIX para o século XX, praticado nos fundos dos quintais pobres e alheio aos modernos conceitos de autoria, passou à condição de um dos símbolos máximos de uma suposta “identidade nacional”?

Na pancada do ganzá: um livro de amor inacabado
Maurício Hoelz
A primeira linha do prefácio do inacabado Na pancada do ganzá, de Mário de Andrade – cujo subtítulo é “Subsídios para conhecimento da vida popular brasileira, especialmente do Nordeste” –, afirma ser esse não um livro de ciência, mas um “livro de amor”. Nele, está em jogo compreender a cultura popular por meio da empatia (“Ouvi o povo, aceitei o povo”), substituindo o discurso sobre ela por um diálogo com ela que pudesse levar ao reconhecimento dos seus portadores sociais em sua dignidade e alteridade plenas – sem recair numa visão fetichizada e triunfalista da autenticidade popular -, e a formas mais descentradas, plurais e inclusivas de identidades coletivas. Nesse gesto de abertura para a diferença (“um ato de amor”) residiria a potência democrática de transformação das relações sociais pelo exercício da solidariedade, que tem no diálogo a forma mais absoluta de conhecimento da alteridade étnica e cultural. Nas suas próprias palavras, no prefácio: “Do fundo das imperfeições de tudo quanto o povo faz, vem uma força, uma necessidade que, em arte, equivale ao que é a fé em religião. Isso é que pode mudar o pouso das montanhas”.

A fumaça que sobe dos nossos quintais
Paulo Dias
Sugestionado pela frase acima, tirada de um jongo do compositor paulistano Daniel Reverendo, pretendo conversar sobre os batuques de terreiro do sudeste, sua ancestralidade e atualidade, no retraçar permanente das conexões simbólicas e sociais dos grupos celebrantes.

Utopia e absurdo no Brasil contemporâneo: reflexões a partir dos folhetos de cordel
Paulo Teixeira Iumatti
O gênero cordelístico do Marco atualiza o antigo paradigma da poesia como monumento perene, baseando-se na afirmação desafiadora de uma excelência poética insuperável. Surgido no âmbito da cantoria no século XIX, e transposto para a escrita dos folhetos de cordel, ele parece constituir em si mesmo um paradoxo, podendo ser visto, também, como instrumento de disputas envolvendo a reiteração ou a contestação de um lugar subordinado (social, racial, simbólico). Apresentando-se como um intrincado enigma, o Marco foi utilizado e resignificado por cantadores, poetas e intelectuais ao longo do século XX, oscilando entre os registros do utópico e do absurdo. Em nossa comunicação, discutiremos sentidos e apropriações do Marco em diferentes contextos, e suas possíveis derivações para a compreensão dos dilemas do país no mundo contemporâneo.

“Não é pra ouvir, é pra gente se deixar ouvir”: a liturgia do canto, de Mário de Andrade a Alfredo Bosi
Pedro Meira Monteiro
Entre o transe místico e o êxtase coletivo desenrolam-se algumas das práticas tidas por populares, fundando aquilo que, de Mário de Andrade a Alfredo Bosi, identifica-se a uma liturgia da comunidade. Tal serviço, entoado pelo povo, coloca a comunidade diante de seu sentido transcendente, a um só tempo distante e próximo, mas feito tangível pelo canto. A pergunta que nos guia, neste caso, recai sobre o papel do indivíduo na revelação dos impulsos e da verdade do grupo. Quem é aquela pessoa que, de repente, parece carregar a voz da comunidade e é por ela carregada?

Paratodos, para os pobres, pra ninguém
Ricardo Teperman
A ideia do “fim da canção” diagnostica o esgotamento do grande projeto modernista de construção de uma cultura brasileira “para todos”, que orientou a bossa-nova, o tropicalismo e boa parte dos vários desdobramentos da MPB a partir dos anos 1970. O rap apresentado pelos Racionais MCs na virada dos anos 1990 representou uma grande novidade na medida em que era feito dos “pobres para os pobres” , desprezando tanto a ideia de povo por trás da letra P, de popular, como a ideia de nação encerrada no B de Brasil. Ao anunciarem a “reforma agrária na música popular brasileira”, adotando procedimentos estéticos e mercadológicos consagrados na tradição hegemônica da MPB, Emicida e Criolo propõem incluir a navalha de Mano Brown no prestigioso retrato feito pela rolleyflex de Caetano e Chico. É um gesto que tem lhes garantido enorme aceitação de público e crítica, mas que também tem decorrências cujo impacto ainda está por ser avaliado – entre os riscos que correm estão notadamente a diluição da verve crítica e a relativa perda de capacidade de representação das camadas mais pobres e marginalizadas.

Atividade com Rosane Almeida
Nossa Ciranda
Iremos dançar uma boa e velha ciranda.
Vamos usar esse momento para descansar a cabeça e deixar o corpo encontrar seus caminhos e nos levar para um novo ambiente físico e sonoro.
Vamos aproveitar  alguns princípios recorrentes das manifestações populares para construir a nossa ciranda.

 

SERVIÇO
Jornada Fazer Pensar Brasil
25/08 das 9h às 19h
Instituto Brincante
ENTRADA FRANCA
Sujeito à Lotação
Pré-inscrição: http://bit.ly/FazerPensarBrasil
Informações: http://bit.ly/FazerPensarBrasil_Eevento
Mediação: Antonio Nóbrega (Instituto Brincante), Pedro Meira Monteiro (Princeton) e André Botelho (UFRJ)
Realização: Instituto Brincante, Princeton University e UFRJ
Produção Geral: Silas Redondo




Assessoria de Imprensa:

Nara Lacerda
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