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S’ambora!

By Antonio Nóbrega | 25 agosto 2016 | Sem Comentários

Hoje, véspera da estreia do show “Semba”, que fica em cartaz desta sexta-feira, dia 26 de agosto até 04 de setembro no Teatro Paulo Autran — Sesc Pinheiros, compartilhamos com vocês o texto de Antonio Nóbrega que integra o programa do espetáculo, ilustrado por alguns registros fotográficos de Lenise Pinheiro, que acompanhou o processo do projeto “Do Semba ao Samba” desde 27 de julho.

“Não sabemos quando a palavra samba começou a circular. Uma data, todavia, marca o seu primeiro registro gráfico. Ela está no final de uma quadrinha escrita pelo frei Miguel do Sacramento Lopes Gama e impressa na revista O Carapuceiro, publicada em do dia três de fevereiro de 1836. É a seguinte:

Aqui pelo nosso mato,

que estava mui tatamba,

não se sabia outra coisa

que a dança do samba.

Embora já fizesse sucesso àquela época — como se deduz –, o samba ainda não era o samba com o qual geralmente o identificamos. Ainda não existia o samba… Samba!

Creio ser possível dividir a sua história em duas fases, apesar de ambas se fundirem. A primeira delas já se inaugura quando da chegada dos primeiros escravos traficados da Mãe África. Entre as práticas e costumes por eles trazidos estava o da umbigada, a semba — entrechoque da região umbilical entre pessoas de sexo oposto em certos momentos das danças rituais de casamento dos povos bantos. Desligada do antigo rito, a palavra semba entre nós transladou-se em samba, que veio, no geral, designar baile popular, cantoria, folguedo, etc. e, no particular, significar toda aquela manifestação de música e dança em que há cantos, tambores tocados com as mãos, palmeado, bate-pés, pessoas que dançam na disposição de uma roda dentro da qual uma dupla saracoteia, requebra, remexe e umbiga!

Pelo contínuo exercício e difusão dessa prática, foi se constituindo ao longo do tempo uma grande linhagem de manifestações que podemos denominar de família samba ou batuque. O Batuque de umbigada do interior paulista, o Samba de Roda baiano, o Samba de Parelha sergipano, o Coco nordestino, o Bambelô do Rio Grande do Norte, o Tambor de crioula maranhense, o Carimbó paraense, o Jongo fluminense, o Cateretê de Goiás, entre vários outros, fazem parte dessa extensa família.

Foram duas as causas através das quais ela se derramou pelo país. Uma delas foram os diversos ciclos econômicos — como cana de açúcar, mineração e café — ocorridos em diferentes épocas e regiões, que obrigaram obrigando o deslocamento da mão de obra escrava a cada vez que um deles expirava foi uma delas. A segunda, foi a presença de uma certa unidade cultural proporcionada pela extensa família banto desaguada no Brasil. A conjugação de ambas fizeram com que práticas semelhantes, mas não idênticas, na medida em que iam se encontrando uma com as outras, fossem gerando novos sotaques de sambas ou batuques.

Com a abolição da escravatura e derrocada do último dos grandes ciclos econômicos do país, o do café, um expressivo contingente de negros e mestiços de Minas e do Vale do Paraíba migra para a capital do país, Rio de Janeiro. A eles se unem outros da Bahia e de Pernambuco. Juntos, todos se fixam nas regiões centrais e portuária da cidade — Gamboa, Pedra do Sal, Saúde, Cidade Nova — e depois nos morros e nas suas encostas. É pelo entorno de algumas dessas regiões — a Pequena África chamada –, que irão proliferar as pensões ou casas de cômodos das famosas Tias baianas, e nelas as também famosas “sessões de samba”. E foi numa dessas sessões realizadas na casa da célebre Tia Ciata, que “nasceu” Pelo telefone, o “samba” que, registrado em novembro de 1916 na Biblioteca Nacional pelo compositor Donga, um dos frequentadores do local, fez o maior sucesso no carnaval de 1917.

O registro de Pelo telefone, em verdade, não marca o nascimento do samba mas, sem dúvida, demarca a época em que o gênero ganha os contornos da música e da dança com os quais se firmará no país.

Desta forma, síntese que fora de primordiais sambas e batuques, o nascente samba originará com o tempo novas variantes: samba-canção, samba-exaltação, samba de breque, samba-bossa nova…

Como se vê, uma história que continua e de tal riqueza sociocultural que me animou a idealizar e colocar em prática junto ao Sesc, o projeto Do Semba ao Samba, do qual este show Semba faz parte.

Posso elencar os motivos principais dessa empresa:

Um: face à invisibilidade por que culturalmente passa um certo e substancioso Brasil, tentar reavivar em nossa memória coletiva um pouco daquilo que somos e do que construímos por meio de uma de suas maiores expressões simbólicas talvez seja um bom tônico para auxiliar a reconstituição de nossa combalida autoestima coletiva;

Dois: a necessidade de relembrar que à margem do eixo civilizatório ocidental também há vida inteligente. Ou melhor, que existe um mundo novo que temos muita dificuldade em entender, aceitar, assimilar, acessar. O samba, apesar de toda sua majestade, é só uma ponta desse monumental aicebergue;

Três: escutar sambas como os de Ismael, Geraldo Pereira, Cartola, Nelson Cavaquinho, Noel, Chico, Paulinho da Viola e de tantos e tantos outros, é como frequentar um imenso orquidário de textos poéticos, ritmos, melodias por meio dos quais podemos aprender um pouco mais de nós e do mundo. Fazendo um trocadilho com o samba clássico de Paulinho da Viola que escutarão neste show, posso dizer que “as coisas estão no samba, só que precisamos aprender”;

Quase para fechar: o samba foi e ainda continua sendo um dos maiores porta-vozes das nossas dores, tristezas, asperezas e alegrias. Tem sido também uma altiva forma de denúncia das mazelas, desmandos e arbitrariedade de que sofre o povo brasileiro. Esse espírito, mais do que nunca, precisa ser reativado. No atual momento de nossa história, sobretudo política, esse é um dos meios de que disporíamos para gritar!.

Fora esses motivos, não sendo doente do pé nem ruim da cabeça — como todos, até certo ponto…, — cantar e dançar sambas me lava a alma!

Agradecendo ao Sesc pelo carinho, atenção e zelo profissional com que mais uma vez acolheu o nosso projeto e trabalho, convidamos, eu e a minha queridíssima turma de co-criadores e colaboradores, a nos acompanharem em mais uma jornada de regresso ao futuro.

S’ambora!

Antonio Nóbrega





Dos batuques primitivos ao gênero musical “samba”

By Antonio Nóbrega | 17 agosto 2016 | Sem Comentários

Em 1916, com o registro na Biblioteca Nacional da composição Pelo Telefone pelo Donga, se formaliza o nascimento do gênero musical — embora que ainda imaturo — que marcaria de modo indelével o semblante cultural do país. O gênero, denominado de Samba, graças e sua divulgação a partir da capital federal pela nascente rádio, veio entranhar-se no corpo e espírito nacional de tal maneira a dar origem a um tão vivo quanto fecundo imaginário cultural.

O que não sabemos é que ao lado do “gênero” samba, muitas outras formas de samba, que ainda se derramam pelo país, não ganharam igualmente as suas “cartas de alforria”.

Antes da palavra samba “instituir” o gênero com o qual hoje o identificamos, o nome era sinônimo de batuque, festa, brincadeira, baile popular, cantoria, pagode, etc. Esses batuques, bailes ou sambas são conhecidos, e praticados, ainda hoje em várias regiões do Brasil pelos nomes de Coco de Zambê, Samba de parelha, Tambor de crioula, Jongo, Batuque paulista, Calango, Carimbó, entre outros. São manifestações de dança e música que guardam entre si inúmeras características comuns, entre elas, e principalmente, a umbigada, a punga, ou como era chamada pelos primeiros escravos trazidos para o Brasil, a semba, de onde, portanto, Samba.

O projeto “Do Semba ao Samba”, que estamos fazendo no Sesc Pinheiros, através do seu amplo leque de atividades, tem como objetivo não só apresentar a arte do samba via espetáculo e aulas-espetáculos, como também proporcionar conversas por meio de mesa de debates e a sua vivência corporal e musical, via oficinas e sambadas.

Confira aqui toda a programação e vem com a gente.

Adicione no seu calendário os eventos que não quer perder clicando aqui.





Do Semba ao Samba é, também, um desejo de me tornar mais íntimo do meu País

By Antonio Nóbrega | 1 agosto 2016 | Sem Comentários

Desde que comecei a idealizar este projeto, “Do Semba ao Samba”, que teve início no dia 27/07 e e se estende até 04/09 no Sesc Pinheiros, perguntam-me (e eu mesmo me pergunto) por que decidi fazer esta incursão em um ritmo/gênero sobre o qual ainda não havia me debruçado tão profundamente.

Uma das respostas é que não sendo “ruim da cabeça nem doente do pé”, além de procurar ser um bom sujeito… gosto bastante de samba. Uma outra é que todos nós cantores, compositores e letristas brasileiros em alguma fase da carreira, temos o nosso momento samba. E o meu chegou! Aproveitei o clarão das comemorações seu do centenário — não é a primeira vez que me aproveito dessa data — para armar não só um espetáculo, que chamarei de Semba, mas um ciclo de atividades ligadas ao mundo Samba. Depois, venho de um longo período de criação de espetáculos ligados à dança e quis voltar para a música — não estarei abandonando a dança –, um território onde me sinto muito bem, seja como cantor, instrumentista ou compositor. Ao realizar um espetáculo com recorte no samba eu me derramo em tudo isso. Além do que, ando estudando com muito afinco o que chamo de “a questão cultural brasileira”.

Em tempos temerários temos de procurar entender melhor o nosso País…Acho até que as pessoas em geral estão com necessidade de se aproximarem um pouco mais Dele. As coisas nesses últimos tempos ficaram bastante feias! E o samba representa uma extraordinária forma de nos aproximarmos do País pela sua essência. A impressão que tenho é que escutando Noel Rosa, Ismael Silva, Ataulfo, Caymmi, Paulinho da Viola, Adoniran, Chico e tantos outros, o Brasil volta a ficar mais perto de mim.

Concluindo, o que me leva a realizar esse projeto são tanto razões como essas que acabo de alinhar, como também um certo desejo semi-inconsciente de me tornar mais íntimo do meu país, de melhor percebê-lo por dentro, pelo miolo.

Confira aqui toda a programação e vem com a gente: http://bit.ly/AgendaSemba

 





Eu e Naná

By Antonio Nóbrega | 10 março 2016 | Sem Comentários

Guardarei duas lembranças e uma música de Naná Vasconcelos para sempre: estou em Recife e recebo a notícia de que ele deixara a cidade para ir morar no Rio (depois deixaria o país); a outra: apresentando-me no show de abertura do carnaval de Recife em 2014, ano em que eu era o homenageado, recebo dele, que fora o do ano anterior, a placa da homenagem. Posso dizer que as duas lembranças fazem parte do lado imaterial, simbólico, afetivo que sempre guardarei de Naná; quanto à música, a carrego materialmente comigo. Ela é uma presença viva e quase constante no cotidiano exercício da minha dança. Sempre que quero fazer um passeio geral pela minha gramática corporal recorro àquela sua música de uma única e curta frase melódica, mas de ritmo forte e intenso com o mesmo poder de nos “agarrar” do Bolero de Ravel…

Vai-se um músico brasileiro. Um músico que para construir a sua obra — ganhadora de inúmeros prêmios e de honrosa fortuna crítica — teve de decantar um imaginário musical, sobretudo rítmico, que cada vez se nos foge, some, desaparece, melhor dizendo, cada vez mais é condenado à não-existência. Que outros termos poderemos usar para dar ideia da acachapante sobreposição, substituição ou apartaide imposto ao imaginário cultural brasileiro? Acompanhem-me: num curto espaço de tempo tivemos o Rock in Rio, Paul McCartney, os Rollings Stones; ainda para os próximos dias e semanas estão programados o Lollapalooza, o Iron Maiden, Cold play, festival Tomorrowland “Brasil” e por aí vai… Essas trupes aportam midiaticamente muito bem armadas. Chega a ser quase diabólica a engenharia e o poder de invenção de suas máquinas de divulgação. Os mais notórios jornais nacionais televisivos, revistas, jornais, rádios, redes sociais diuturnamente se revezam em noticiar suas apresentações.

E fato curioso: em tempos de crise lotam! Lotam. Li ontem que o preço do Lollapalooza para os dois dia é de R$ 800,00 contos! Lotam! Atentemos para o nome de algumas das poucas bandas “brasileiras” convocadas: Funky Fat, The Baggios, Dingo Bells… Não fosse essa invasão (há outra palavra?), e quase tudo que é tocado nos aeroportos, nas salas dos consultórios, nos programas das rádios, nas academias de esporte, nas trilhas das novelas, etc., de uma forma ou de outra, se intercomunica com esse imaginário. Ou seja o imaginário Brasil está sumindo do mapa e olhem que esse é o ano em que se comemora o centenário do samba. Alguém aí já ouviu os nosso grandes jornais, televisivos ou impressos cortejarem essa notícia? O samba vai dar em samba…Não assisto diariamente o programa de jornalismo das 22 h da Globo News, mas no mais das vezes que o vi, notei que ele é sempre finalizado com um clipe de alguma banda americana, inglesa ou assemelhada. Ei!? Nesse ano não poderia ser dada uma colherzinha de chá aos nossos grandes compositores de samba? Não há nenhum deles por aí que tenha pedigree para dar o ar de sua graça no programa?

A verdade é que estamos ficando cada vez culturalmente mais alienados. Parece que aspiramos em não ser o que somos. No mundo oficial da chamada música erudita coisa semelhante acontece. Pergunto: quantas orquestras sinfônicas subsidiadas pelo poder público ou empresarial existem no país? Talvez não fique longe de uma centena. Quantos grupos de choro ou de música instrumental à brasileira são subsidiados? Conheço alguns desses grupos, como a Orquestra Retratos (cordas dedilhadas) e a Spok Frevo orquestra, cuja qualidade inovadora dos seus trabalhos é inversamente proporcional aos subsídios que recebem — quando os conseguem via algum edital de cultura. Informo: isso não é xenofobia ou etnocentrismo às avessas de minha parte. Admiro muitíssimo a música de Stravinsqui, de Bach, de Mozart, acho um deleite escutar tanto sinfonias de Beethoven como canções de Bob Dylan, dos Beatles, etc. Mas o seguinte é esse: temos de ser bem mais a favor da música do Brasil, porque se não tivermos o zelo e cuidado que ela merece e precisa em breve desaparecerá, ou pelo menos muitas de suas qualidades.

Vai-se Naná Vasconcelos e com ele se apaga ainda mais um país que se esvai, que se contorce, que sangra… e que não consegue se repor. Não é simplesmente pelo fato de ser brasileiro que me determino a arrazoar do jeito que estou fazendo hoje aqui! Escrevo essas considerações porque percebo que o grande armazém, o nosso exuberante caldeirão de representações simbólico-populares — pulsos rítmicos, formas e gêneros poéticos, modos de atuação teatral, etc. e etc. — não é devidamente legitimado, reconhecido. É cada vez mais proscrito, isso sim! É uma lástima não conseguirmos dar ouvidos a pessoas como Mário de Andrade, Darcy Ribeiro, Ariano Suassuna, para citar alguns dentre os que já se foram, pensadores que se empenharam em entender e diagnosticar os nossos males e problemas culturais.

Não pensamos Brasil.

Será que nos contentaremos em ser eternamente o país da antropofagia (só se faz comer e não se digere, é…?), o país do carnaval, da geleia geral e do futebol que, felizmente, deixou de sê-lo?

Somos tão ocidentais quanto não o somos. Até o presente momento o mundo da cultura e civilização ocidental tem dado as cartas. Não é difícil constatar que esse sistema-mundo está longe de salvaguardar e preencher a totalidade das nossas necessidades humanas, sociais e culturais. Se o modelo ocidental fosse exemplar será que estaríamos onde nos encontramos? Não falo só do país, falo do planeta no seu todo, cujo modelo de civilização é sobretudo de base ocidental e androcêntrico.

No caso do nosso país a desproporção com que a nossa vertente cultural ocidental ou americanoeuropeia se sobrepõe à outra — índio-africana-ibérico-popular — é de atordoante violência. Esses dois mundos culturais precisam conversar de igual para igual. Não há saída. A arte é apenas um dos avatares desse processo.

Esse é o recado que há tempos Naná já havia me passado. Continuarei a escutá-lo e através de sua música a senti-lo. Com meu corpo.

Embalado por sua música danço como quem ri e quem chora.





Brasil nosso de cada dia

By Antonio Nóbrega | 2 março 2016 | Sem Comentários

O novo relatório da Anistia Internacional revela os retrocessos em relação aos direitos humanos no país tomando como base a pauta do Legislativo e a tendência dos parlamentares:

  1. Impedir o aborto até mesmo em casos de estupro;

  2. Impossibilitar a demarcação de terras indígenas, dívida histórica. Os conflitos só fazem aumentar;

  3. Eliminar as restrições ao porte de arma (num país recordista de homicídios em números absolutos).

 

CURIOSIDADES DA CRISE

Dei-me tempo de calcular quanto os brasileiros deixaram nas bilheterias dos estádios para assistir os Rollings Stones e, salvo engano meu, só em compra de ingressos calculo que não foi menos de R$ 70.000,00 milhões. É bastante, né? Crise de afeto sai caro.

AINDA SOBRE ELA, A CRISE:

A Avibras, a mais importante indústria de equipamentos militares do país cresceu quase 10 vezes entre 2012 e 2016. Ou seja, a sua receita pulou de 154 milhões para 1,33 bilhão de reais no período. A estrela da empresa é o sistema Astros, de artilharia de foguetes e mísseis detentor de 25% do mercado mundial no segmento. Cada bateria da família Astros II é composta de seis caminhões lançadores de foguetes, mais seis veículos remuniciadores e outro com sistema de radar e meteorologia para controle de tiro… Quem sabe alguns deles não estejam passeando pela ruas da Síria ou do Iraque?

Pra fechar tem um videozinho que me mandaram. Assisti e achei legal passar adiante.





POR FAVOR, PARE, AGORA! SENHOR JUIZ, PARE, AGORA!

By Antonio Nóbrega | 16 setembro 2015 | Sem Comentários

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Não sei se recordam-se desse frase aí de cima. É o refrão daquela canção interpretada pela Wanderléa à época da jovem guarda. Lembro-me que a cantava com as minhas irmãs num conjunto musical caseiro que mantínhamos. Foi esse refrão que me veio imediatamente à lembrança domingo pela manhã quando li na Folha de São Paulo matéria sobre o salário dos desembargadores e juízes. Fiquei com o juízo meio derrubado ao tomar conhecimento da quantidade de “auxílios”, sete ao todo, que recebem juízes e desembargadores lotados no Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, segundo o jornal, o mais rico do país. Rico, realmente, porque o tribunal tem um Fundo Especial cuja arrecadação anual é de cerca de um bilhão de reais, dinheiro que deveria ser destinado a melhorias do próprio poder Judiciário. Pois bem, os R$ 4.377,00 de auxílio-moradia, mais R$ 1.825,00 de auxílio-alimentação, mais R$ 953,47 e R$ 953,47 de auxílio-creche e auxílio-educação, para o caso de terem filhos em correspondentes fases etárias, mais proventos extras por acumulação de cargos na ordem de R$ 15.235,00 e mais auxílio-funeral de R$1.800,65… irão somar-se ao seu salário base de R$ 30.000,00. É um pouquinho bão, né?

Aproveitei o ensejo da matéria e fui me informar adicionalmente. Tomei conhecimento (O DIA Rio, 03/06/2015) que uma juíza diretora do fórum recebeu em março a quantia de R$ 129.000,65, que um juiz da vice-presidência embolsou em fevereiro R$ 163.444,00 e que um desembargador, em janeiro, engordurou sua conta bancária com mais R$ 241.823,34…

É claro que se formos levar uma conversa, como se diz por aí, numa boa, com os senhores juízes e desembargadores, tudo isso será defensável, afinal eles estão longe de ganhar os supersalários embolsados mensalmente por um mar de gente por esse mundo aí afora, um mundo que, em vão, tantos de nós tentamos nos acomodar. Afinal nos ensinam que “o mundo é assim”!

Porque, ao que parece, toda essa gastança está dentro da lei, do direito! Dentro do que a Constituição permite, referenda! Ao invés de um ideal de justiça criamos foi uma fantasmagoria de justiça. É isso mesmo. Será que a legalidade jurídica legitima uma disparidade dessas? Uma tamanha disparidade, uma desconformidade com a realidade social do país. E aí, como mudar esse estado de coisas? Se a instituição que legisla o país abona esse tipo de conduta, como mudar esse sistema, um sistema-mundo, diga-se afinal, cujo único ou maior objetivo parece ser o de amealhar, lucrar, estocar! Quem não desconfia que posturas como essas só fazem encolher o nosso, já de si tão precário, espírito de compartilhamento, de justiça social? E do jeito que a carruagem anda, estamos já achando que comportamentos dessa natureza são absolutamente normais, como se fizessem parte do tabuleiro “natural” do jogo do mundo.

Ao final, a impressão que tenho é que a nossa animalidade – sem querer ferir os animais – ainda se sobrepõe demasiado à nossa humanidade. Não são tão relevantes os nossos progressos ainda. E aí? Conseguiremos nos reconfigurar, por dentro, antes que o estrago seja inevitável, e talvez até irremediável? Que energia teremos de realocar em nós para, transformando-nos, mudar a paisagem espiritual do mundo? Como quebrar a cadeia dos automatismos que nos conduz sempre em direção ao mesmo assíduo e confortável lugar? Não haverá outras instâncias confortáveis dentro de nós que, por não as frequentarmos, sentimos um enorme temor em experienciá-las? Outros estados mentais? Não haverá outros “chips” mentais dentro de nós? A ciência tão ciosa do “desenvolvimento humano”, porque não busca formas de nos ajudar a reeducar os nossos córtices cerebrais? É isso mesmo! Que novas conexões neuronais não estariam já prontas para desabrochar e florescer esperando só um “empurrãozinho” do espírito civilizatório? Já pensaram se acolhêssemos e cultivássemos – lembrando que cultivo e cultura têm a mesma raiz etimológica – uma forma de nos educarmos onde o senso de justiça e humanidade fossem tópicos absolutamente prioritários?! Uma nova maneira religiosa de viver a vida – um todo religado –, mas sem deuses. Chega de deuses! Nesse sentido não teriam os budistas através dos seus processos de meditação pistas a nos oferecer? O que dizer do exercício de um cristianismo sem mediação, terreno, vivo, “a la Francisco”, o nosso cara, hoje!

(Fico pensando se num gesto improvável, impensável, dificilmente possível, um desembargador ou juiz, ou alguns deles dissessem: – “Não! Vamos redirecionar um desses auxílios mensais para uma instituição de ensino “!” O que diria a Standard & Poor’s se atitudes-investimento dessa natureza pipocassem?)

Em todo o caso, enquanto tudo isso não deixe de parecer ficção científica ou utopia, ou sei lá o quê, não nos resta pedir, como na canção: senhor juiz, por favor, pare agora!





Singer, eu e a cantadeira

By Antonio Nóbrega | 24 março 2015 | Sem Comentários

Uma boa leitura para esta semana é a entrevista com o cientista político André Singer publicada neste domingo (22/03) no caderno “Ilustríssima”, da Folha de São Paulo. O tema da entrevista é a atual situação política e econômica do país e a presidente Dilma. Vários tópicos nos fornecem à abastança material para reflexão e discussão. Aproveito dois deles para dar fundamento ao meu pequeno texto de hoje.

Um deles diz o seguinte: “A classe média tradicional mostrou que tem horror à ascensão social dos pobres. É um fenômeno sociológico e político. Chega a ser uma rejeição ao próprio povo brasileiro”. Para mim essa é uma daquelas questões realmente essenciais, e precisamos compreender urgentemente as razões que levaram essa rejeição ao ponto em que chegou, pois, tanto no plano social quanto no cultural, ela só tende a nos afastar da compreensão de nós mesmos, fazendo retardar enormemente o nosso avanço em relação a uma nação mais justa e de todos.

As frases acima lembraram-me de um fato que ocorreu comigo. Na verdade, é uma pequena historieta que começa no dia em que uma musicista, ao me escutar cantar um romance* num recital aqui em São Paulo, ficou empolgadíssima com a música a ponto de me procurar depois da apresentação para saber como é que ela poderia ter acesso àquele tipo de música – que, segundo ela, era de muito refinamento. Disse-lhe que se tratava de uma recriação que fizera de um romance anônimo e popular que escutara de uma cantadeira nordestina. Curiosa, perguntou-me se eu ainda iria rever essa cantadeira e se, quando isso acontecesse, ela poderia me acompanhar. Fiquei surpreso com a sua disposição e lhe disse que, coincidentemente, iria voltar a vê-la em breve. A musicista não relutou em afirmar que estaria presente a esse encontro, mesmo sabendo que para isso teria de fazer uma viagem razoavelmente longa.

Não me recordo exatamente quantos meses se passaram dessa data até o encontro, mas o fato é que, no dia aprazado, nos encontramos na capital do estado de nascimento da cantadeira e rumamos para um município distante pouco mais de uma hora, onde ela morava e a escutaríamos.

À medida que o carro se deslocava do centro urbano da cidade para o pequeno município, a estranheza se plantava no rosto da musicista. A impressão que tenho é de que ela nunca visitara uma cidade do interior, e muito menos do nordeste… Chegamos ao município e logo rumamos para um sítio um pouco afastado dele. Lá, perguntei pela minha amiga cantadeira à meninada que já rodeava o carro, e imediatamente foram chamá-la. Ao vê-la aparecer, o rosto da musicista se transformou. A minha amiga cantadeira, uma negra, usava chinela Havaianas (mais para reciclagem do que para qualquer outra coisa), pitava um cachimbo e, ademais, tinha um certo jeitão serioso no olhar… Seguiu-se a apresentação entre ambas, a musicista cada vez mais dando sinais de estupefação. Conversamos alguma coisa e logo pedi à cantadeira que nos cantasse alguns romances. Normalmente ela cantava sozinha – a capela, como se diz – e fui de pronto atendido. Lembro-me de que ela cantou uns dez romances, pelo menos…

Provavelmente minha amiga musicista pensou que encontraria uma figura de cantadeira semelhante àquelas que o cinema edulcora quando quer revelar alguma cena ambientada na Idade Média. Ou pensava, talvez, encontrar alguma dessas cantoras de obras medievais que os CDs (na época em alta) apresentam em reconstituições de época em que tudo parece ser novinho, bonitinho, higienizado, sem ranhura ou ruído. A nossa cantadeira, pelo contrário, tinha uma voz rouca, não dispunha da maioria dos dentes, os cabelos encarapinhados eram pobremente cuidados e vez por outra ainda cuspia para os lados…

Mas foi a partir do momento em que a cantadeira começou a “tirar” os romances que o semblante da musicista deu uma guinada. À medida que a cantadeira cantava e que sua voz ia esquentando, o rosto da musicista também ia se transfigurando. Conforme ela ia entendendo os textos das narrativas, as formas estróficas em que eram cantados, o desenho das melodias, a rítmica sutil mas presente, os recursos de voz utilizados na cantarolagem dos versos etc.,  a sua disposição de espírito ia gradativamente se modificando. Uma aquiescente generosidade se instalava em seu rosto. Arrisco dizer que o que nela se passava era a descoberta de alguma  riqueza oculta que ela começava a perceber, riqueza esta, todavia, difícil de acreditar ser possível encontrar numa pessoa com aquela aparência e vivendo dentro daquele contexto social. Sua formação musical dava-lhe ainda preparo para entender os modos e escalas em que a cantadeira cantava os romances, a antiguidade e atualidade dos procedimentos por ela utilizados, os  fios temáticos das histórias.

Não me recordo se me encontrei novamente com a musicista. De qualquer forma, espero que, assim como para mim, momentos como aquele tenham lhe servido para perceber um pouco da questão da cultura popular brasileira, um assunto que me parece longe de ser levado a sério na dimensão que exigiria.

O outro tópico do artigo do Singer dispensa comentário e historieta: “Chegou a hora da grande política, em que os partidos precisam ser partidos, os estadistas, ser estadistas, e a sociedade vai testar o próprio grau de maturidade”.

 

Nóbrega

 

*Romance é o nome dado a histórias narradas e cantadas em versos. O nosso Romanceiro, nome dado ao conjunto dessas narrativas, é de origem ibérica e uma das manifestações formadoras da literatura de cordel.





Mario, o trezentão

By Antonio Nóbrega | 5 março 2015 | Sem Comentários

(Sugestão da equipe: leia o post ao som de Truléu, Léu, Léu, Léu do disco “Na Pancada do Ganzá” (1995), dedicado a Mário de Andrade.)

“Recolhendo e recordando esses cantos, muito deles tosquíssimos, precários às vezes, não raro vulgares, não sei o que eles me segredam que me encho todo de comoções essenciais, e vibro com uma excelência tão profundamente humana, como raro a obra de arte erudita pode me dar.”

“Do fundo das imperfeições de tudo quanto o povo faz, vem uma força, uma necessidade que em arte equivale ao que é a fé em religião. Isso é que pode mudar o pouso das montanhas.”

 

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Os dois parágrafos acima foram escritos por Mário de Andrade, provavelmente em 1934. Eles comporiam o prefácio da coleção de registros e estudos que pensava publicar sob o nome de Na Pancada do Ganzá. Mário morreu há setenta anos e oito dias atrás, ou seja, no dia 25 de fevereiro, vítima de um enfarte fulminante aos 51 anos (sua obra entra em domínio público no ano que vem). Deixou-nos um extenso e precioso legado. Foi poeta, romancista, cronista, professor de música, ensaísta, missivista, gestor cultural, pesquisador e estudioso da cultura popular brasileira. Foi trezentos… Muitos de nós o conhecemos unicamente como o autor de Macunaíma, sem dúvida umas das obras fundamentais da literatura brasileira, mas eu, particularmente, tenho um apreço e admiração incomensuráveis  pelos seus estudos e escritos focados na busca de entendimento do papel da cultura – e em especial da cultura popular – no homem e no contexto da sociedade brasileira. Figuras como Mário de Andrade não são simplesmente para serem lidas, estudadas, admiradas e lembradas, são para serem colocadas em prática! E aí é preciso, antes de mais nada, conhecê-lo.

Jovens que frequentam os cursos e palestras que dou me pedem muitas vezes para indicar obras que os ajudem no entendimento do que chamo de a linha de tempo cultural popular. Vou aproveitar o ensejo deste artigo para, atendendo essa demanda, indicar alguns livros de Mário dedicadas ao tema. Eles ajudarão no conhecimento não só do autor e de sua obra como do Brasil. São elas:

Danças Dramáticas do Brasil (três volumes)

Os Cocos

As Melodias do Boi e Outras Peças

Aspectos da Música Brasileira

Ensaio sobre a Música Brasileira

Pequena História da Música

Dicionário Musical Brasileiro

Música de Feitiçaria no Brasil

Com a morte prematura de Mário, coube inicialmente à Oneyda Alvarenga, uma aluna e colaboradora dele, a organização da maioria desses livros. Para aqueles que lerão as Danças Dramáticas, eu recomendo que leiam e releiam quantas vezes sejam necessárias a Introdução (está no primeiro volume). Um texto, para mim, ainda completamente atual. Leiam todos os asteriscos e notas ligados aos seus textos. E não deixem também de ler  os apêndices que estão no final d’Os Cocos.

Para quem se interessar em aprofundar o conhecimento do escritor, de sua obra, do seu legado, uma visita ao Instituto de Estudos Brasileiros da USP (IEB) será fundamental. Todo seu acervo – originais, suas coleções e correspondências, etc. –  está lá e é lá, ainda, onde se encontra uma das maiores conhecedoras de Mário e de sua obra, a pesquisadora e professora titular Flávia Toni.

Vários livros já foram publicados sobre Mário e aspectos de sua obra. Eu tenho um especial apreço por um livrinho (magro de tamanho e gordo de “tutano”) do André Botelho, chamado Mário de Andrade – uma Descoberta Intelectual e Sentimental do Brasil. O título traduz à risca o livro. É uma publicação da Companhia das Letras (selo Claro Enigma) dentro da coleção “De olho em”.

Vou finalizar este artiguete com aquele mesmo poema do Mário com o qual o André concluiu o seu prazeroso livro.

EU SOU TREZENTOS

Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cinquenta,

As sensações renascem de si mesmas sem repouso,

Oh espelhos, oh Pireneus! Oh caiçaras!

Si um deus morrer, irei no Piauí buscar outro!

 

Abraço no meu leito as milhores palavras,

E os suspiros que dou são violinos alheios;

Eu piso a terra como quem descobre a furto

Nas esquinas, nos táxis, nas camarinhas seus próprios beijos!

 

Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cinquenta,

Mas um dia afinal eu toparei comigo…

Tenhamos paciência, andorinhas curtas,

Só o esquecimento é que condensa,

E então minha alma servirá de abrigo.

 

A Nobrega

 

 





Meu carnaval 2015

By Antonio Nóbrega | 12 fevereiro 2015 | Sem Comentários

Nesta sexta treze (…) estarei participando mais uma vez da abertura do carnaval de Recife. Ano passado, nessa mesma ocasião, recebia eu de Naná Vasconcelos a “faixa” de homenageado do carnaval, “faixa” que passarei na festa de abertura amanhã para o amigo Spok. Na verdade, essa homenagem dividi com o frevo, cujo reconhecimento como patrimônio imaterial da humanidade se dera em dezembro de 2012. Foi a partir de fevereiro de 2014, portanto, que eu e o frevo nos  enlaçamos num casamento cuja finitude mais próxima é a eternidade…Com a escolha de Spok para ser o homenageado do carnaval deste ano, esse laço se amplia transformando-se num grande e fraterno frevo-abraço que daqui envio para o amigo, literalmente, de vários carnavais, Spok. Com efeito, remonta ao ano de 1996 o nosso primeiro encontro, quando, em cima de um trio elétrico na avenida Boa Viagem, na semana pré-carnavalesca, nos juntamos pela primeira vez para tocarmos e cantarmos “a música pernambucana”. Esse fato foi o estopim de uma parceria que se concretizou em outros trios, espetáculos, Cds, Dvds, e viagens pelo país e fora dele. Portanto, razão tenho eu de sobra para desejar ao amigo o melhor carnaval do mundo…

E dele se tratando, digo do carnaval, irei novamente, e ainda, nele me apresentar nesse ano. Além da participação na abertura, farei quatros apresentações. Serão elas em Recife, no sábado e domingo, respectivamente nos polos de Jardim São Paulo e Arsenal da Marinha, sempre às 23:40h e, fora de Recife, uma em Olinda, na segunda, às 23h e uma outra em Paudalho, já na quarta, à 1h da manhã.

Para essas apresentações, e diferentemente dos anos anteriores, em que sempre privilegiei cantar e tocar a música carnavalesca pernambucana – em que pese uma certa indefinição dessa frase-conceito – nesse ano tomei a decisão de apresentar músicas minhas independentemente da ligação carnavalesca. As pessoas, principalmente de Recife, andam me solicitando cantar canções presentes em vários  espetáculos que criei e que raramente apresento em shows.

É o caso de músicas como Zumbi, Estrela D’alva, Foguete brasileiro, etc. Espero  atender, portanto, nos shows de carnaval desse ano, a demanda tanto desses pedintes-fãs, quanto, me desculpem a franqueza, a minha pessoal demanda, pois verdade seja dita, há algum  tempo que gostaria de reapresentar essas canções, cuja ocasião me parece ser, nesse carnaval, nos trinques!

Vamos ver se, além de mim e dos fãs, as demais pessoas que porventura os assistirão, irão concordar com a minha decisão.

Vou aproveitar, agora, ao finalizar, para convidar a todos para escutar uma dessas músicas, a Avenida Brasil, uma marcha-de-bloco composta por mim e pelo amigo-parceiro Wilson Freire onde casamos os bonitos nomes das ruas de Recife com as do bairro paulistano da Vila Madalena. Ela está em um dos Cds Nove de Frevereiro.

Segue a letra.

Rua Nova, rua Velha,

Purpurina, Chão de estrelas,

até quando ainda vou revê-las?

 

Madalena, porque choras?

Angustura, ai que Saudade,

que fizemos às cidades?

Piedade

 

Quero acordar, Aurora, no Largo da Concórdia,

subir Ladeira da Misericórdia.

 

Rua do sol, da União, do Futuro.

À deriva caminho, porto inseguro.

Não andar com Liberdade,

pelos centro e arrabaldes…

Dor que me atropela

sob a passarela

da Avenida Brasil.

Quem quiser ouvi-la direitinho é só ir para …o dropsitunestagflash

Nóbrega  

PS: O pessoal da minha comunicação pede pra dizer que aqui vocês encontram todos os meus canais digitais.

 





A água e a boca do vulcão

By Antonio Nóbrega | 5 fevereiro 2015 | Sem Comentários

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Abri a porta do box para tomar banho e me pus de pé dentro de uma bacia colocada bem embaixo do chuveiro. Abri a torneira e à medida que a água começou a me molhar fui logo xampuando os cabelos. Fechei o chuveiro e ensaboei-me todo. Abri novamente a torneira e enquanto a água escorria pelo corpo e cabeleira (…) retirando a espuma, aproveitei ainda para sabonetar o rosto…

Quando terminei toda a operação vi que a água acumulada na bacia já dava pelo começo da canela e que supriria por duas ou três vezes a demanda de água para usar na privada.

E fui me enxugando pensando-perguntando: se fôssemos educados  dentro dessa atitude desde o dia em que tomamos banho pela primeira vez, se aprendêssemos desde muito cedo que os “dons” da natureza não são  infinitos e que nascemos para viver gregariamente, não nos pouparíamos, nós a nós mesmos, do vexame que passaremos em breve, ainda nós, os moradores da cafeinada  cidade de São Paulo?

Tenho para mim que o caso da água é só mais um sinal de alerta sobre quão perdulária é a nossa maneira de conviver com natureza. Não creio que estejamos usando da melhor maneira possível os recursos de nossa inteligência, pois, ao que parece, inflacionamos desmesuradamente a nossa porção cerebral impulsionadora de atitudes e atos inconsequentes, excessivamente individualistas, estúpidos. No caso da água, é bem verdade que o nosso governador não deveria ter sido tão omisso e incivil.  Desmereceu a sua função de guardião do estado e da sua gente. Mas não creio que seja unicamente pela via política que a questão pode ser resolvida.

A questão em jogo é muito maior. É um problema de natureza também conjuntural. Um problema do sistema-mundo em que vivemos. Estamos nos educando muito insatisfatoriamente para o exercício da vida em comum! A educação tal como é modernamente concebida não parece querer levar em conta certos aspectos. Falta-nos dar um sentido maior e integral  à palavra educação. Caminhamos bem no quesito educação formal. De uma forma ou de outra – aqui, acolá – ela tem prosperado: aprendemos matemática, geografia, tocar um instrumento musical, a nadar, a passar no vestibular, etc. Mas…

Estou pensando numa educação que, embora converse com essa, a ultrapasse, a transcenda.  Estou pensando numa educação cultural, humanística mesmo, aquela que leve em conta valores, visão de mundo, sentimento gregário, planetização, etc., aquela que nos ajude a ampliar, abrir as nossas consciências face aos problemas que, não nos iludamos, se não soubermos tratar, nos levarão à ruína… Estou pensando numa educação que nos faça compreender que somos todos parceiros de uma mesma jornada planetária e que se não nos irmanarmos nessa jornada única – tão bela quanto árdua – estaremos fadados a sermos puxados, irremediavelmente sem retorno e remissão, para dentro da boca do vulcão…Pois estamos ao seu redor…

O mundo tal como o conhecemos está desmoronando. Que mundo queremos e podemos (re)construir? Que outra escala de valores teremos de assentar nessa diferente Escola-mundo que almejamos? Que novos exercícios de humanidade teremos de nos impor?

Eram essas as questões que me invadiam enquanto tomava meu banho matinal com menos de um quinto da água que habitualmente utilizava…

 




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