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Jacob 100 anos

By Antonio Nóbrega | 23 abril 2018 | Sem Comentários

Hoje, 23 de abril é um dia especial. É o dia do choro e também o de aniversário de um dos seus maiores representantes: Pixinguinha, que se vivo estivesse completaria 121 anos. Só não disse que o Pixinga foi o maior representante do choro porque tivemos a sorte de ter ainda entre os vários e ilustres compositores e instrumentistas do gênero, o sempre admirado e reverenciado Jacob do Bandolim, que nessa ano de 2018, precisamente no dia 14 de fevereiro, teria completado 100 anos.

E aí tive a ideia de aproveitar a data e lançar, hoje, a campanha Jacob 100 anos. Nela estou solicitando que músicos instrumentistas gravem – pode ser nos celulares – em imagem e som, o choro Gostosinho do Jacob a partir da base de acompanhamento executada pelos competentes músicos Gian Correa, violão sete cordas, e Léo Rodrigues, pandeiro, que estamos postando ao final desse texto. Podem ser gravados tanto solos quanto a base. Envio ainda a partitura (embora ela  marque um andamento de 116, estamos tocando um pouquinho mais lento). Então fiquem atentos: é preciso gravar no andamento dessa base para que os nossos amigos e colaboradores Gustavo Vale (engenheiro de som) e Alexandre Amêndola (editor de audiovisual) possam fazer a edição.

Outra coisa: o convite é dirigido a todo e qualquer instrumentista, seja ele de flauta, trombone, marimba, guitarra, baixo, piano, fagote, apito, inclusive a bandas. Sejam todos bem vindos! Vamos fazer uma bela de uma edição audiovisual com os vídeos que nos enviarem. A campanha se estenderá de hoje até o dia 23 de junho.

Um lembrete importante é que podem participar músicos de todos os lugares e quadrantes do mundo: japoneses, escandinavos, russos, sírios, americanos, italianos, angolanos, conchinchinianos, pasargadianos, etc.

Vamos nessa! Porque, além de homenagearmos Jacob e o choro, a ideia é  de criarmos também uma rede de confraternização mundial através da música.

Nesses tempos de antagonismos e falta de entendimento, como é o caso especial do nosso país, a música pode ser um canal de encontro e confraternização. Um canal por onde possa fluir o lado prazenteiro, poético e esperançoso do país, quiçá do mundo… Aquele lado que, pudéssemos traduzir a música de Pixinguinha e Jacob do Bandolim  em riqueza social e humana e certamente estaríamos a léguas de distância dos vexames espiritual, político  e social porque estamos passando.

Portanto, Hamilton, que ao longo do ano vai  lançar a obra completa de Jacob, Marcos Cézar, lá de Recife, Yamandu Costa, Herz e Krassik, Quaternaglia, Hermeto, Henrique Cazes, Gismonti, Banda Silibrina, Capelupi e tantos e tantos outros admiráveis e geniais músicos brasileiros, vamo-que-vamo compor “a mais bela roda de choro que jamais poderia ser realizada”, especialmente para homenagear o grande e querido Jacob.  

Partitura que utilizei.

Vídeo da base executada por Gian Correa e Léo Rodrigues.

Áudio dessa mesma base, pra quem preferir ouvir pelo soundcloud.

O e-mail para enviarem suas participações é oie@agenciafervo.com.br.

E para começar dando o exemplo, segue a minha modesta contribuição para a campanha. 

Grande Abraço.

 





Os Africanos

By Antonio Nóbrega | 26 outubro 2017 | Sem Comentários

 

 Costa da Guiné, Uidá, Golfo de Benim, Forte de São Jorge de Mina, Fortaleza de Ajudá, Luanda, Benguela, são os nomes de alguns portos e regiões da África de onde, por mais de três séculos, em insalubres porões de navios, negros foram despachados para o Brasil. Embora se estime em torno de cinco milhões o número de africanos obrigados a deixar suas famílias, clãs, aldeias, cidades, reinos e puderam, ao desembarcar, ser encaminhados para o trabalho em lavouras de cana, café, algodão, fumo, cacau, interiores das minas, criatório de animais e serviço doméstico, é provável que um número considerável desse contingente tenha sido amortalhado pelas águas do Atlântico.

Quem eram esses homens e mulheres? De quais regiões africanas vieram?

O nosso continente-mãe – não fosse a ausência de terras à nordeste e sua configuração seria idêntica à do Brasil – se derrama através de  30.000.000 m2 de superfície numa extensão de norte a sul de 8.000 km e de 7.600 km de leste a oeste. Dividida em cinco grandes regiões, a África tem uma magnitude que não se restringe ao fato de ter sido o berço da nossa espécie. É lá ainda onde se encontram os maiores desertos, savanas, florestas, rios e lagos do planeta, onde são faladas um terço das línguas existentes no mundo e vivem centenas de etnias que se distribuem entre cinquenta e cinco países.

Uma classificação ainda corrente das etnias trazidas para o Brasil, nos foi dada pelos precursores dos estudos afro-brasilei­ros no país, Nina Rodrigues e Arthur Ramos. Ela se apoia na ideia de que os povos que vieram para o Brasil seriam representadas por dois grandes grupos ou macroetnias: os sudaneses e bantos. Os primeiros seriam provenientes da vasta região que fica ao sul do deserto do Saara, denominada pelos árabes que ocuparam  norte da África de o “país dos negros” – Bilad-Es-Sudan. Reuniriam as etnias Iorubá, Ketu, Ohori, Ifonyin, Anagô, efiks, ibipios, Adjás, Mahis, fon, ewe, mahi, as islamizadas haúças, mandingas e fulas, entre dezenas de outras. Essas etnias ocupariam as regiões onde hoje se encontram o Sudão, Chade, Níger, Togo, Guiné, Benim, Nigéria e Costa do Marfim.

Os bantos, de longínqua e antiga origem, habitariam a extensa faixa de terra onde atualmente se encontram Angola, Congo, Zaire, Namíbia, Zâmbia, Tanzânia e Moçambique. Fariam parte dessa grande família as etnias Cabinda, Benguela, Macua, Angico, Caçange, Rebolo, Muxincongo, Moçambique, Monjolo, Quimbundo, Umbundo, entre também inúmeras outras. As línguas faladas pelos sudaneses e bantos fazem parte  do maior conglomerado linguístico do mundo, o tronco nigero-congolês, que reúne 1524 idiomas. Entre aqueles mais falados no Brasil estariam, pela lado banto, o quicongo, o quimbundo e o ambundo, etc., e pela linhagem benuê-congolesa, o Iorubá, o fon e o ewe.

Embora tais línguas não sejam faladas no cotidiano brasileiro, o rastro de suas presenças está em toda parte. A mesma presença que se observa na cultura corporal do brasileiro em geral.

O texto “Os Africanos” compõe o livro Com Passo Sincopado – Em busca de uma linguagem brasileira de dança de Antonio Nóbrega. Conheça o projeto contemplado pelo Prêmio Funarte de Dança Klauss Vianna 2014: http://bit.ly/2hiAaco

 





Eu, o Mateus e o Quinteto Armorial

By Antonio Nóbrega | 12 setembro 2017 | Sem Comentários

Foi no fim de tarde de um domingo na Casa de Cultura de Recife, assistindo pela primeira vez uma apresentação de um Bumba-meu-boi e acompanhando deslumbrado a movimentação da figura de um Mateus, que despertei para dança. Aquela burlesca personagem teatral vestida com calça e camisa de chita, de pés descalços, segurando uma espécie de bastão ou baliza com fitas multicores amarradas numa das suas extremidades, dançando, gesticulando, faceciando, mugangando, galhofando ali bem à minha frente, me deixava completamente aturdido, desconcertado, hipnotizado…e com uma incontrolável vontade de fazer aquilo que ele fazia…

Tinha 19 anos nessa ocasião e alguns meses atrás havia sido convidado por Ariano Suassuna para integrar o Quinteto Armorial. Ariano me assistira tocando o concerto de Mi M de Bach para violino numa apresentação que fizera na Igreja de São Pedro dos Clérigos, local de habituais concertos na cidade, e achara que eu era a pessoa talhada para o posto. Ora, quem seria eu para negar-lhe tal convicção?…

Só alguns anos depois é que compreendi que aquele convite representara a senha, o passaporte de entrada para um mundo, até àquela época, inteiramente desconhecido para mim. Esse convite mudaria lenta e indelevelmente não só o meu modo de praticar e fazer arte, como a minha maneira de ver e pensar o Brasil e o mundo.

Àquela ocasião fazia o primeiro ano do curso de Direito e mantinha estudos formais de música e violino, mas, nem me sentia especialmente vocacionado para as lides jurídicas, nem tampouco achava que dedicar 5, 6 horas de estudo por dia ao violino seria uma atividade que preenchesse integralmente a minha curiosidade e interesses artísticos. Gostava imensamente de ler e escrever e idealizava fazer diplomacia…. Portanto, aquele convite vinha em boa hora.

O primeiro ensaio do Quinteto aconteceu na casa de Ariano. Ali, na sala de visitas de sua casa, no bairro de Casa Forte em Recife, dispusemos nossas estantes de música, colocamos a partitura da música Repente do Antonio José Madureira e, lentamente, sob olhar curioso e atento de Ariano, começamos a tentar traduzir em sons o que aquelas folhas de papel nos indicava. Durante vários anos repetiríamos esse rito. Ali nos encontraríamos para ensaiar as músicas compostas para o grupo por Antonio José Madureira – quem dirigia o Quinteto e seu principal compositor – Generino Luna, Jarbas Maciel, Capiba, Egydio Vieira e por mim. Em verdade, o grupo nasceu como um quarteto formado por uma viola dedilhada, executada pelo Madureira; um violão, pelo Edilson Eulálio; uma flauta, inicialmente tocada pelo Generino Luna e depois sucessivamente pelo Guebinha – José Tavares de Amorim –, Egydio Vieira e, por ultimo, Antonio Fernandes de Farias, vulgo “Pintassilgo”; eu alternava a execução do violino tradicional com a sua versão popular, a rabeca. Não demoraria muito para que um quinto instrumento, o Marimbau, entrasse em cena. Para quem não o conhece trata-se de uma versão um pouco mais completa do que o Berimbau, pois enquanto esse é basicamente um instrumento rítmico – muito embora instaure um campo harmônico quando tocado, em virtude das duas notas, geralmente intervaladas numa segunda maior, tiradas da corda de aço por meio da movimentação da moeda sobre ela – o marimbau permite a execução de uma escala diatônica completa. Não precisarei descrevê-lo, a foto anexa irá fazê-lo melhor que eu.

(…)

Antonio Nóbrega

O texto “Eu e as Danças Populares” compõe o livro Com Passo Sincopado – Em busca de uma linguagem brasileira de dança de Antonio Nóbrega. Conheça o projeto contemplado pelo Prêmio Funarte de Dança Klauss Vianna 2014: http://bit.ly/PassoSincopado





SEMBA E OUTROS SAMBAS

By Antonio Nóbrega | 2 maio 2017 | Sem Comentários

Semba, o espetáculo que criamos juntos eu, músicos e dançarinos em fins de 2016, retorna para mais duas apresentações no Auditório do Ibirapuera nos dias 13 e 14 de maio. Assim como me vali do ensejo de comemoração dos centenários do Frevo ­(2007) e do nascimento de  Luís Gonzaga (2013) para criar espetáculos que reafirmassem dois gêneros fundadores da música e dança brasileiras – frevo e  baião – aproveito o biênio 2016/17 para homenagear, tocar, dançar e cantar samba. Como um dos orgulhosos criadores de Semba, opino que é absolutamente impossível (!) alguém desgostar de um espetáculo que relembra canções de Noel, Geraldo Pereira, Ismael, Caymmi, Chico, Paulinho da Viola, reinterpretadas pela “humílima e genial figura” que vos fala (!),  recriadas em inspirados arranjos de Edmilson Capelupi e Edson Alves e dançadas em líricas e modernas coreografias criadas e interpretadas por um afiado grupo de bailarinos liderado por Maria Eugênia de Almeida. Portanto, pessoas todas, ao Auditório!

Dito isso, deixando-me levar pelo embalo da escrita, instigado pelo mal-estar geral da nação, e solicitando um tiquinho a mais de sua generosa atenção, aproveitarei ainda para elencar e comentar sucintamente algumas ocorrências desses nossos Temerários dias. O simples fato de tomar conhecimento delas tem me levado por vezes a um tal desmantelo por dentro que, em estado de abobalhada ruminação, fico buscando as “ontológicas” razões pelas quais chegamos a tal desarranjo.

Lá vão:

1

As desoladoras declarações dadas pelo misantropo Charles Cosak sobre sua gestão à frente da biblioteca Mário de Andrade.

Sua atitude em desfavor do samba e do choro – e não é chorinho!!!, que rima com jeitinho, bonitinho, tadinho…: o gênero chama-se Choro! – é preconceituosa e e desaforada, sobretudo por se tratar de um gestor cultural que está à frente de uma instituição que tem como patrono Mário de Andrade. Para fortalecer o meu ponto de vista, aconselho a leitura da crônica do escritor Lira Neto que, estreando domingo coluna na Folha de São Paulo, argumenta nessa mesmo direção.

2

A enviesada cobertura dada pela grande mídia à greve geral.  Por meio da mídia de maior alcance, aquilo que foi acidental tornou-se emblemático. Eu que acompanhei pela Av. Pedroso de Morais o grande cordão de manifestantes – cortejo de pelo menos dois quilômetros – posso afirmar que foi tranquilo, dançável até, e, como se diz, ordeiro. Não acho que a presença dos chamados Black blocs (?), ao final, deslegitimou o movimento. Embora vandalismo e quebra-quebra sejam sempre condenáveis, nem sempre são de todo incompreensíveis. Para um governo de tal maneira desorientado e ilegítimo, cujo representante tem a pachorra de afirmar que estamos saindo da recessão no mesmo dia em que é publicada a taxa de desemprego do último trimestre informando que ela atingiu o seu maior patamar, fazem atitudes como a dos arruaceiros parecer não ser tão inadmissíveis! Vale à pena a leitura do comentário da ombudsman Paula Cesarino Costa, da Folha, também publicada no dia 30 de abril.

3

A instabilidade emocional dos integrantes do STF, cuja liderança tem se mostrado frágil. Os ministros falam quando bem lhes apetece, em especial o Gilmar Mendes que, à semelhança de um velho e pastoso coronel, faz e fala o que quer e quando quer. A sua última arbitrariedade foi dar tratamento diferenciado ao apaniguado Aécio Neves permitindo que a sua defesa tivesse acesso, antes do seu interrogatório, aos depoimentos dados por delatores nas investigações sobre a propinagem de Furnas. Se não é ilegal, vai de encontro aos procedimentos habituais da Polícia Federal.

4

A vitória no Congresso da reforma trabalhista e a minha impossibilidade de aceitar mudanças que privilegiam tão abertamente a classe patronal em detrimento da trabalhadora. Atenho-me a dois pontos que, no meu entender, fragilizam a classe dos trabalhadores: a pauperização dos sindicatos, via desobrigação da contribuição sindical (o equivalente a um dia de trabalho anual) e a ausência do estado legislador entre patrão e empregado. Hipoteticamente viver em um Brasil onde sindicatos e empregadores pudessem negociar livremente seria o ideal, mas a nossa performance social, como sabemos, é obscena. Ausentar a mão legisladora do estado é fortalecer ainda mais o patronato e, de resto, as vorazes forças do capital. Ademais, podemos colocar o negociado acima do legislado? No caso brasileiro atual, afirmar essa disposição não seria socialmente retroagir?

 

A atual paisagem política e social Brasileira é desencantadora. Mas apesar de tudo, apesar da constatação de que o fim desse túnel de frustações está longe de ser vislumbrado, ainda creio que é possível nos agarrarmos a um fiapo de esperança. Uma frágil esperança, sim, mas que poderá se robustecer, na medida em que nos dispusermos a tentar entender verdadeiramente um país cujos infortúnios do momento, podem ser justamente as senhas para dar a volta por cima e entrar no futuro.

 

Nobrega

 

 

 





Eu vou pra Saruê

By Antonio Nóbrega | 6 março 2017 | Sem Comentários

“Quebrando coco

de praia, de Catolé,

perguntei-me o que é

que com este mundo há?

Como num filme

preto e branco e a cores,

cheio de risos e dores,

eu agora vou narrar.

 

Começo em Minas

onde a VALE se derrama.

Sobre o vale um mar lama,

sobre um povo e um lugar.

Matando a fauna,

bicho homem e toda flora.

Hoje a natureza chora

do Rio Doce até o mar.

 

Eu vi as bolsas

despencarem nos pregões

euro, dólar, meus tostões,

onde é que vão parar?

Vão para os bolsos

do mercado financeiro

que governa o mundo inteiro

sem ninguém para vetar.

 

Lá pela Síria

eu vi bombas a granel.

Feito chuva, vêm do céu

destruir tudo o que há.

Bomba francesa,

bomba norte americana,

bomba russa e muçulmana,

e a bubônica bomba Agá

E as multidões  

dos exilados das guerras

procuram por uma terra

onde em paz possam ficar.

Cruzam desertos

com fome, sede e  com medo.

Muitos têm como degredo

naufragar, morrer no mar.

 

Fecham fronteiras,

erguem cercas, paredões,

campos de concentrações,

currais de gente sem lar.

Intolerância

política e religiosa,

combinação perigosa

que já vimos no que dá.

 

Brasil moderno

vive dando marcha ré,

também dá tiro no pé,

eu aqui vou explicar.

De vez em quando

é uma grande agonia,

contra a democracia

estão sempre a atentar.

 

Tudo acontece

nos conchavos, na surdina,

tudo à base da propina

como agora vou mostrar.

Saiu uma lista

da Odebrecht construtora,

a grande corruptora

dos políticos de alugar.

Pois esta lista

tem os nomes dos políticos

com apelidos esquisitos

de se rir e se chorar.

É engraçado,

mas também é uma tragédia,

o país perdeu a rédea,

atenção, escute lá.

 

Quem encabeça

é um sujeito Temeroso,

um político vergonhoso

que não vou pronunciar.

E tem “Caju”,

“Justiça”, “Índio” e “Primo”

tem “Las Vegas”, ói que mimo,

tem “Piquí” e “Angorá”

 

Tem muita gente,

tem um tal de  “Corredor”,

“Goleiro”, “Feia”, ai, senhor!

Tem “Moleza”, pra mamar.

Até “Comuna”,

tem um “Jovem” e um “Velhinho”.

Todos juntos em um ninho

de raposas pra roubar.”

 

Música feita numa parceria de Antonio Nóbrega com o poeta Wilson Freire, apresentada nos shows de carnaval 2017

 

 





As redes estão livres. As ruas continuam abertas (ainda…)

By Antonio Nóbrega | 8 fevereiro 2017 | Sem Comentários

Quem me acompanha pelo Blog já deve ter notado que tem diminuído a frequência com que nele compareço com algum texto. É que tomei a decisão de só reanimar a minha presença nele após concluir um livro para o qual há anos venho reunindo pesquisas, anotações, reflexões e até demonstração prática via DVD. Se não tomar a atitude de dar foco especial a esse trabalho, correrei o risco de não concluí-lo à data aprazada.

Mas não é do livro que irei falar. Estou aqui em frente ao meu computador, no alvorecer do dia, rompendo momentaneamente o meu pacto, para, primeiramente, deixar derramar toda a minha contrariedade, frustação, desânimo, consternação, repulsa, asco, etc. etc. pelos fatos de natureza sobretudo política que vêm rasgando o nosso país e nos deixando atônitos, boquiabertos e sedados! O caldeirão de há muito que vem transbordando, mas o seu último enxurro veio com a “boa nova” de que o “presidente” do país – país? Que país? – indicou o atrapalhado e ardiloso Alexandre de Moraes para integrar o STF na vaga do Teori Zavaski. Tal decisão é de uma violência moral aterradora. Bastaria unicamente o fato de que um ministro da “justiça” de um presidente, 34 vezes citado num processo de delação, não poderia ser indicado por esse mesmo “presidente” a ocupar cadeira no tribunal que irá julgá-lo. É um descaramento total! E o pior: caberá a um senado cujo presidente atual e o anterior são também citados inúmeras vezes na mesma delação que atinge o “senhor presidente” a sabatinação! Despudor! E aí, caros? Onde ficamos nós nisso tudo? Com a mesma cara de pasmo, lesificados, com o estômago ardendo e a mente, aflita, latejando? Na expectativa de que algo milagrosamente possa cair do céu e arrumar a Casa Brasil, a pátria amada e cordial de sempre…?

Duvido que os membros do STF esbocem desacordo com a indicação. O caminho mais simples para que essa indecência fosse evitada seria a do próprio indicado seguir o que ele mesmo defende em livro que escreveu em 2000. Basta abri-lo – trata-se de tese de doutorado! – e reler o ponto 103 da conclusão: “É vedado (para o cargo de ministro do STF) o acesso daqueles que estiverem no exercício ou tiveram exercido cargo de confiança no Poder Executivo, mandatos eletivos, ou o cargo de procurador-geral da República, durante o mandato do presidente da República em exercício no momento da escolha, de maneira a evitar-se demonstração de gratidão política ou compromissos que comprometam a independência de nossa Corte Constitucional”. (Os originais da tese – um “tijolo” de 416 páginas – estão disponíveis na biblioteca da USP do Largo de São Francisco.) Embora não concorde com a ideia de que a judialização pública brasileira possa resolver todos os nossos males, o grau de indigência e venalidade alcançado pelo poder executivo e classe política brasileiras é de tal grau que pede, obriga o Poder Judiciário a não se acovardar diante dos fatos.

Quanto a nós, sociedade civil, e retomando, carece que a toda hora, a todo momento – mesmo quando transitoriamente nos afastamos do nosso foco individual de interesse e trabalho – manifestemos o nosso desacordo em relação às atrocidades que nos rondam. “Os mortos enterrem seus mortos, jamais a esperança” (Luz Natal. in Cántico. Jorge Guillén.) As redes estão livres. As ruas continuam abertas (ainda…). 

PS: acabei de aderir ao abaixo-assinado contra a indicação de Alexandre Moraes para o STF. Assine você também.

 

alexandremorais

 





Fora Geddel, fora anistia!

By Antonio Nóbrega | 20 janeiro 2017 | Sem Comentários

Com uma revolta mais contida, volto ao assunto que ontem catalisou todas as crônicas da segunda página do primeiro caderno da Folha de São Paulo e hoje, ainda na mesma página, duas. Foi também ontem, na mesma página, que pude entrar em contato com o esmerado postulado Temeano : “É preciso uma certa ladainha, é preciso repetir, você repete uma vez, duas vezes, três vezes, quatro vezes, como se faz nas missas, toda missa é igual porque você repete os conceitos. Isso vai entrando no corpo, no espírito e na alma.” Perceberam, o que temos como mandatário da nação?

Talvez seja o caso de repetirmos o seu axioma de forma reversa: invocando-o até a exaustão, uma vez, duas vezes, três vezes, quatro vezes, como ele aconselha e quem sabe dessa maneira não consigamos fazer o Geddel pular fora!

Ando realmente inconformado com esse pesadelo! Mas para que não se tenha a errônea impressão de que a minha e nossa revolta e grito é apenas a exteriorização de um simples e passageiro desconforto, basta ler o artigo do Janio de Freitas publicado hoje no mesmo jornal, para medirmos o tamanho da cratera que nos aguarda, caso não fiquemos em alerta máximo e não reajamos.

Não fosse isso, soube agora que a votação dos dez, doze artigos contra a corrupção foi adiada para terça da próxima semana. Até lá a “imaginação criadora” dos nossos congressistas certamente irá tentar desentranhar alguma mirabolante e obscura estratégia em prol da anistia dos “quem deve sempre teme ”. 

Fora Geddel

Fora anistia!





Fora Geddel

By Antonio Nóbrega | 23 novembro 2016 | Sem Comentários

Peraí, pessoal!

Não estamos transformando o país numa nação de atarantados?

De atarantados, aturdidos, apalermados, pacóvios, alienados e anestesiados…?

Diante da consumação de fatos tão despudorados e afrontosos porque temos vivido, aceitar a permanência do ministro Geddel Vieira Lima no posto de Secretário de Governo do senhor Michel Temer é estupidamente se resignar, é como voltar para a cama, puxar o cobertor e só levantar quando a agonia da ressaca diminuir.

Mas peraí, pessoal!

Deve ficar claro que não pode ser assim.

Improbo, aético, hipócrita são algumas discretas palavras que podem ser facilmente atribuídas ao senhor Geddel. Não irei ainda relatar o imbróglio em que se meteu, os jornais e as televisões já o fizeram, e até razoavelmente.

O que falta agora é a nossa parte.

O que está à míngua entre nós, sujeitos e público da nação, é tomarmos posição. Ou melhor, megafonizar nossa posição! O meu ponto de vista é que já está mais do que na hora de espernearmos, de abrirmos o bocão, de irmos todos para as praças, ruas e avenidas do Brasil! Não podemos deixar que nos pisem tão sem dó, tão inescrupulosamente a toda hora, todo dia, sempre!

Portanto: fora Geddel! Fora! Fora!

E aí, pessoal, vamos nessa?

 





Galope à Beira Mar – Uma pequena aula sobre composição popular por Antonio Nóbrega

By Antonio Nóbrega | 3 novembro 2016 | Sem Comentários

O banjo que estou oferecendo a quem escrever um belo e azeitado Galope à beira-mar (mais informações sobre como participar podem ser encontradas aqui), foi usado por João Sidurino no espetáculo Segundas Histórias. João Sidurino? É o narrador das aventuras do inigualável Tonheta! João é amasiado com Rosalina del Jesus e ambos percorrem as areias do deserto da Namíbia, as auto estradas da Bélgica, as geleiras da Groelândia, etc. difundindo e relatando os extraordinários feitos do estupendo Tonheta.

Mas não é dessa trinca que irei falar agora. O meu assunto hoje é o Galope à beira mar. Para que vocês concorram da melhor maneira possível à oferenda, darei as informações básicas sobre como escrever um Galope à beira mar. Antes das instruções, todavia, vou pedir primeiramente para que deem uma atenciosa olhada na estrofe que está logo aí embaixo. Meu pedido é que procurem perceber, por vocês mesmos, a configuração e particularidades dessa estrofe criada pelos cantadores populares nordestinos. Lá vai:

Então, meia noite, anjos emissários

em conta de sete, de aura azulada,

falaram pra ele punhando as espadas:

“és tu o escolhido, Bispo do Rosário.

Terás de fazer o teu inventário

e reconstruir o universo sem par,

pra diante de Deus tu te apresentar

vestido em teu manto vermelho-centelha”.

Entrou no hospício da praia vermelha

cantando galope na beira do mar.

Leram e examinaram?

Agora, vamos lá:

1. Trata-se de uma estrofe de dez versos, linhas ou pés;

2. Cada um desses versos tem onze sílabas, portanto a estrofe é uma “hendecassílaba”;

3. Todos os versos rimam entre si: o primeiro com o quarto e o quinto; o segundo com o terceiro; o sexto com o sétimo e o décimo; e o oitavo com o nono;

4. Cada um dos versos é acentuado na 2ª, na 5ª e na 11ª sílaba para dar maior cadência musical;

5. A estrofe é obrigada a terminar com um mote ou frase que faça alusão à beira do mar. No nosso caso esse mote será: “cantando com o banjo na beira do mar”.

Observem agora a mesma estrofe com algumas marcações para facilitar a compreensão dos tópicos expostos acima.

Então, meia noite, anjos emissários A

em conta de sete, de aura azulada, B

falaram pra ele, punhando as espadas: B

“és tu o escolhido, Bispo do Rosário. A

Terás de fazer o teu inventário A

e reconstruir o universo sem par, C

pra diante de Deus tu te apresentar C

vestido em teu manto vermelho-centelha”. D

Entrou no hospício da praia vermelha D

cantando galope na beira do mar. C

Aproveito, ainda, para apresentar em seguida as demais estrofes que compõem a canção Galope para o Bispo do Rosário, criada por mim e pelo poeta, amigo e parceiro Wilson Freire.

Aí agarrou-se àquela missão.

Mas todos diziam que era loucura.

Sozinho a sentir a dor, a agrura

de ter de fazer a reconstrução.

De enorme tarefa e tudo à mão

só tinha sucata para começar.

Sem barro de Adão para ele soprar,

só cacos de vidro e tacos de telha.

Ali no hospício da praia vermelha

cantando galope na beira do mar.

Juntando pedaços de panos, caixotes,

com pregos, botões, colheres, canecos,

flanelas, lençóis, agulhas, chinelos,

brinquedos, moedas, um velho holofote,

lutou contra todos, virou Dom Quixote…

Com lixo a empreitada pode terminar.

Até que um anjo o veio buscar,

e aí, com meu Deus, fizeram parelha.

Saiu do hospício da Praia vermelha

cantando galope na beira do mar.

Fechando: quem quiser saber quem foi o Bispo do Rosário basta dar um breve passeio pela Internet que irá encontrar uma infinidade de informações sobre esse grande brasileiro; quem tiver interesse em escutar a canção, é só se encaminhar para o spotify ou adquirir o CD Marco do Meio Dia que será vendido no bazar à preço de banana; quem tiver vontade de aprender um pouco mais sobre rimas e versos, é comigo mesmo! Sou o cara! Estarei no primeiro semestre no Brincante ensinando como se escreve e se tira de improviso emboladas, galopes, sextilhas, etc. e etc.

Acompanhe a programação do Instituto para 2017. Brincante 25 anos.

Abraços,

Nóbrega, SPaulo. 1/11/16

PS: o ganhador do banjo será anunciado no lançamento do Bazar do Brincante, uma feira de CDs, DVDs e outras relíquias que fizeram os primeiros 24 de história do Instituto.

Bazar do Brincante
20 a 27/11
10h às 18h
Rua Purpurina, 412
Lançamento: dia 20/11 das 10h às 18h com canja do Nóbrega às 17h





“Volta Semba”…!

By Antonio Nóbrega | 22 setembro 2016 | Sem Comentários

Compartilho com vocês o texto que recito no show “Semba”. Criado por mim e pelo amigo e poeta Wilson Freire — valeu a paciência! — relatamos um pouco da história do samba nas estrofes abaixo.

Vim com os Negros.

Sou aquele Semba antigo,

no quadril e no umbigo

trouxe eu meu festejar.

Corpo com corpo

chacoalhando na umbigada,

na senzala ou na latada

eu aqui vim pra ficar.

Em toda festa

ritual e brincadeira

me esbanjavam a noite inteira

sem ter hora pra parar.

E com toadas,

palmas e tambor de mão,

bate-pé, poeira e chão

samba foram me chamar.

E em cada canto

onde eu me enraizava,

alguém me rebatizava

com algum nome do lugar:

Cateretê,

Caxambu e Bambelô,

Bate-coxa e Milindô,

e o Coco de embolar.

Mas quando um dia

aboliram a escravatura

e o café perdeu a brancura

que o dinheiro podia dar,

parti com os negros,

mamelucos e mestiços,

em bandos e em rebuliços,

pra no Rio vir morar.

E foi por lá,

nos saraus da Tia Ciata,

onde encontrei toda nata

do choro e do batucar:

o Pixinguinha,

o Sinhô, João da Baiana,

muito mais gente bacana,

todos iam para lá.

E pelas noites

de batuques sincopados,

saracoteios e gingados,

deram de me exaltar.

Me tornei gênero

de música e de dança

e foi dessa aliança

que virei ímpar, sem par.

O meu batismo

como Samba, o meu nome,

foi o “Pelo Telefone”

que o Donga foi registrar.

Mil novecentos

somando mais dezesseis

era o ano e a vocês

ainda eu posso vou contar.

Eu me firmei,

me espalhei pela Mangueira,

Catumbi e Madureira,

em Nilópolis fui pousar.

Mestre Cartola,

Candeia, Carlos Cachaça,

Noel Rosa, o boa praça,

viviam a me semear.

Aí virei

patrimônio coletivo.

E como sou hiperativo

vivo a me transfigurar.

Sou samba-choro

sou pagode e gafieira,

samba-enredo e uma fileira

de mais nomes vim ganhar.

E mais ainda:

sou a festa e a dor,

a tragédia e o amor,

todos vivem a me cantar.

Chico Buarque

e Paulinho da Viola,

João Bosco e a vida rola,

sou o samba e sou sem par.

Eu hoje sou

quase o “Juízo final”,

sou o “País Tropical”,

que não sei se “Vai passar”.

O “trem das onze”,

o “Mestre-Sala dos Mares”,

“Sonho meu”, outros olhares

eu ainda vou lançar.

Eu denuncio

a mentira, a injustiça,

a verdade me atiça,

nada ruim vai me deter.

Sou vigilante

da paz, da democracia,

dia e noite, noite e dia.

Eu não tenho o que temer.

Quem não viu o espetáculo Semba, que apresentei no Sesc Pinheiros de 27/08 a 05/09 — ou quem viu e gostou, bem que poderia começar um movimento direto e já: “Volta Semba”…!

 




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