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Eu vou pra Saruê

By Antonio Nóbrega | 6 março 2017 | Sem Comentários

“Quebrando coco

de praia, de Catolé,

perguntei-me o que é

que com este mundo há?

Como num filme

preto e branco e a cores,

cheio de risos e dores,

eu agora vou narrar.

 

Começo em Minas

onde a VALE se derrama.

Sobre o vale um mar lama,

sobre um povo e um lugar.

Matando a fauna,

bicho homem e toda flora.

Hoje a natureza chora

do Rio Doce até o mar.

 

Eu vi as bolsas

despencarem nos pregões

euro, dólar, meus tostões,

onde é que vão parar?

Vão para os bolsos

do mercado financeiro

que governa o mundo inteiro

sem ninguém para vetar.

 

Lá pela Síria

eu vi bombas a granel.

Feito chuva, vêm do céu

destruir tudo o que há.

Bomba francesa,

bomba norte americana,

bomba russa e muçulmana,

e a bubônica bomba Agá

E as multidões  

dos exilados das guerras

procuram por uma terra

onde em paz possam ficar.

Cruzam desertos

com fome, sede e  com medo.

Muitos têm como degredo

naufragar, morrer no mar.

 

Fecham fronteiras,

erguem cercas, paredões,

campos de concentrações,

currais de gente sem lar.

Intolerância

política e religiosa,

combinação perigosa

que já vimos no que dá.

 

Brasil moderno

vive dando marcha ré,

também dá tiro no pé,

eu aqui vou explicar.

De vez em quando

é uma grande agonia,

contra a democracia

estão sempre a atentar.

 

Tudo acontece

nos conchavos, na surdina,

tudo à base da propina

como agora vou mostrar.

Saiu uma lista

da Odebrecht construtora,

a grande corruptora

dos políticos de alugar.

Pois esta lista

tem os nomes dos políticos

com apelidos esquisitos

de se rir e se chorar.

É engraçado,

mas também é uma tragédia,

o país perdeu a rédea,

atenção, escute lá.

 

Quem encabeça

é um sujeito Temeroso,

um político vergonhoso

que não vou pronunciar.

E tem “Caju”,

“Justiça”, “Índio” e “Primo”

tem “Las Vegas”, ói que mimo,

tem “Piquí” e “Angorá”

 

Tem muita gente,

tem um tal de  “Corredor”,

“Goleiro”, “Feia”, ai, senhor!

Tem “Moleza”, pra mamar.

Até “Comuna”,

tem um “Jovem” e um “Velhinho”.

Todos juntos em um ninho

de raposas pra roubar.”

 

Música feita numa parceria de Antonio Nóbrega com o poeta Wilson Freire, apresentada nos shows de carnaval 2017

 

 





As redes estão livres. As ruas continuam abertas (ainda…)

By Antonio Nóbrega | 8 fevereiro 2017 | Sem Comentários

Quem me acompanha pelo Blog já deve ter notado que tem diminuído a frequência com que nele compareço com algum texto. É que tomei a decisão de só reanimar a minha presença nele após concluir um livro para o qual há anos venho reunindo pesquisas, anotações, reflexões e até demonstração prática via DVD. Se não tomar a atitude de dar foco especial a esse trabalho, correrei o risco de não concluí-lo à data aprazada.

Mas não é do livro que irei falar. Estou aqui em frente ao meu computador, no alvorecer do dia, rompendo momentaneamente o meu pacto, para, primeiramente, deixar derramar toda a minha contrariedade, frustação, desânimo, consternação, repulsa, asco, etc. etc. pelos fatos de natureza sobretudo política que vêm rasgando o nosso país e nos deixando atônitos, boquiabertos e sedados! O caldeirão de há muito que vem transbordando, mas o seu último enxurro veio com a “boa nova” de que o “presidente” do país – país? Que país? – indicou o atrapalhado e ardiloso Alexandre de Moraes para integrar o STF na vaga do Teori Zavaski. Tal decisão é de uma violência moral aterradora. Bastaria unicamente o fato de que um ministro da “justiça” de um presidente, 34 vezes citado num processo de delação, não poderia ser indicado por esse mesmo “presidente” a ocupar cadeira no tribunal que irá julgá-lo. É um descaramento total! E o pior: caberá a um senado cujo presidente atual e o anterior são também citados inúmeras vezes na mesma delação que atinge o “senhor presidente” a sabatinação! Despudor! E aí, caros? Onde ficamos nós nisso tudo? Com a mesma cara de pasmo, lesificados, com o estômago ardendo e a mente, aflita, latejando? Na expectativa de que algo milagrosamente possa cair do céu e arrumar a Casa Brasil, a pátria amada e cordial de sempre…?

Duvido que os membros do STF esbocem desacordo com a indicação. O caminho mais simples para que essa indecência fosse evitada seria a do próprio indicado seguir o que ele mesmo defende em livro que escreveu em 2000. Basta abri-lo – trata-se de tese de doutorado! – e reler o ponto 103 da conclusão: “É vedado (para o cargo de ministro do STF) o acesso daqueles que estiverem no exercício ou tiveram exercido cargo de confiança no Poder Executivo, mandatos eletivos, ou o cargo de procurador-geral da República, durante o mandato do presidente da República em exercício no momento da escolha, de maneira a evitar-se demonstração de gratidão política ou compromissos que comprometam a independência de nossa Corte Constitucional”. (Os originais da tese – um “tijolo” de 416 páginas – estão disponíveis na biblioteca da USP do Largo de São Francisco.) Embora não concorde com a ideia de que a judialização pública brasileira possa resolver todos os nossos males, o grau de indigência e venalidade alcançado pelo poder executivo e classe política brasileiras é de tal grau que pede, obriga o Poder Judiciário a não se acovardar diante dos fatos.

Quanto a nós, sociedade civil, e retomando, carece que a toda hora, a todo momento – mesmo quando transitoriamente nos afastamos do nosso foco individual de interesse e trabalho – manifestemos o nosso desacordo em relação às atrocidades que nos rondam. “Os mortos enterrem seus mortos, jamais a esperança” (Luz Natal. in Cántico. Jorge Guillén.) As redes estão livres. As ruas continuam abertas (ainda…). 

PS: acabei de aderir ao abaixo-assinado contra a indicação de Alexandre Moraes para o STF. Assine você também.

 

alexandremorais

 





Fora Geddel, fora anistia!

By Antonio Nóbrega | 20 janeiro 2017 | Sem Comentários

Com uma revolta mais contida, volto ao assunto que ontem catalisou todas as crônicas da segunda página do primeiro caderno da Folha de São Paulo e hoje, ainda na mesma página, duas. Foi também ontem, na mesma página, que pude entrar em contato com o esmerado postulado Temeano : “É preciso uma certa ladainha, é preciso repetir, você repete uma vez, duas vezes, três vezes, quatro vezes, como se faz nas missas, toda missa é igual porque você repete os conceitos. Isso vai entrando no corpo, no espírito e na alma.” Perceberam, o que temos como mandatário da nação?

Talvez seja o caso de repetirmos o seu axioma de forma reversa: invocando-o até a exaustão, uma vez, duas vezes, três vezes, quatro vezes, como ele aconselha e quem sabe dessa maneira não consigamos fazer o Geddel pular fora!

Ando realmente inconformado com esse pesadelo! Mas para que não se tenha a errônea impressão de que a minha e nossa revolta e grito é apenas a exteriorização de um simples e passageiro desconforto, basta ler o artigo do Janio de Freitas publicado hoje no mesmo jornal, para medirmos o tamanho da cratera que nos aguarda, caso não fiquemos em alerta máximo e não reajamos.

Não fosse isso, soube agora que a votação dos dez, doze artigos contra a corrupção foi adiada para terça da próxima semana. Até lá a “imaginação criadora” dos nossos congressistas certamente irá tentar desentranhar alguma mirabolante e obscura estratégia em prol da anistia dos “quem deve sempre teme ”. 

Fora Geddel

Fora anistia!





Fora Geddel

By Antonio Nóbrega | 23 novembro 2016 | Sem Comentários

Peraí, pessoal!

Não estamos transformando o país numa nação de atarantados?

De atarantados, aturdidos, apalermados, pacóvios, alienados e anestesiados…?

Diante da consumação de fatos tão despudorados e afrontosos porque temos vivido, aceitar a permanência do ministro Geddel Vieira Lima no posto de Secretário de Governo do senhor Michel Temer é estupidamente se resignar, é como voltar para a cama, puxar o cobertor e só levantar quando a agonia da ressaca diminuir.

Mas peraí, pessoal!

Deve ficar claro que não pode ser assim.

Improbo, aético, hipócrita são algumas discretas palavras que podem ser facilmente atribuídas ao senhor Geddel. Não irei ainda relatar o imbróglio em que se meteu, os jornais e as televisões já o fizeram, e até razoavelmente.

O que falta agora é a nossa parte.

O que está à míngua entre nós, sujeitos e público da nação, é tomarmos posição. Ou melhor, megafonizar nossa posição! O meu ponto de vista é que já está mais do que na hora de espernearmos, de abrirmos o bocão, de irmos todos para as praças, ruas e avenidas do Brasil! Não podemos deixar que nos pisem tão sem dó, tão inescrupulosamente a toda hora, todo dia, sempre!

Portanto: fora Geddel! Fora! Fora!

E aí, pessoal, vamos nessa?

 





Galope à Beira Mar – Uma pequena aula sobre composição popular por Antonio Nóbrega

By Antonio Nóbrega | 3 novembro 2016 | Sem Comentários

O banjo que estou oferecendo a quem escrever um belo e azeitado Galope à beira-mar (mais informações sobre como participar podem ser encontradas aqui), foi usado por João Sidurino no espetáculo Segundas Histórias. João Sidurino? É o narrador das aventuras do inigualável Tonheta! João é amasiado com Rosalina del Jesus e ambos percorrem as areias do deserto da Namíbia, as auto estradas da Bélgica, as geleiras da Groelândia, etc. difundindo e relatando os extraordinários feitos do estupendo Tonheta.

Mas não é dessa trinca que irei falar agora. O meu assunto hoje é o Galope à beira mar. Para que vocês concorram da melhor maneira possível à oferenda, darei as informações básicas sobre como escrever um Galope à beira mar. Antes das instruções, todavia, vou pedir primeiramente para que deem uma atenciosa olhada na estrofe que está logo aí embaixo. Meu pedido é que procurem perceber, por vocês mesmos, a configuração e particularidades dessa estrofe criada pelos cantadores populares nordestinos. Lá vai:

Então, meia noite, anjos emissários

em conta de sete, de aura azulada,

falaram pra ele punhando as espadas:

“és tu o escolhido, Bispo do Rosário.

Terás de fazer o teu inventário

e reconstruir o universo sem par,

pra diante de Deus tu te apresentar

vestido em teu manto vermelho-centelha”.

Entrou no hospício da praia vermelha

cantando galope na beira do mar.

Leram e examinaram?

Agora, vamos lá:

1. Trata-se de uma estrofe de dez versos, linhas ou pés;

2. Cada um desses versos tem onze sílabas, portanto a estrofe é uma “hendecassílaba”;

3. Todos os versos rimam entre si: o primeiro com o quarto e o quinto; o segundo com o terceiro; o sexto com o sétimo e o décimo; e o oitavo com o nono;

4. Cada um dos versos é acentuado na 2ª, na 5ª e na 11ª sílaba para dar maior cadência musical;

5. A estrofe é obrigada a terminar com um mote ou frase que faça alusão à beira do mar. No nosso caso esse mote será: “cantando com o banjo na beira do mar”.

Observem agora a mesma estrofe com algumas marcações para facilitar a compreensão dos tópicos expostos acima.

Então, meia noite, anjos emissários A

em conta de sete, de aura azulada, B

falaram pra ele, punhando as espadas: B

“és tu o escolhido, Bispo do Rosário. A

Terás de fazer o teu inventário A

e reconstruir o universo sem par, C

pra diante de Deus tu te apresentar C

vestido em teu manto vermelho-centelha”. D

Entrou no hospício da praia vermelha D

cantando galope na beira do mar. C

Aproveito, ainda, para apresentar em seguida as demais estrofes que compõem a canção Galope para o Bispo do Rosário, criada por mim e pelo poeta, amigo e parceiro Wilson Freire.

Aí agarrou-se àquela missão.

Mas todos diziam que era loucura.

Sozinho a sentir a dor, a agrura

de ter de fazer a reconstrução.

De enorme tarefa e tudo à mão

só tinha sucata para começar.

Sem barro de Adão para ele soprar,

só cacos de vidro e tacos de telha.

Ali no hospício da praia vermelha

cantando galope na beira do mar.

Juntando pedaços de panos, caixotes,

com pregos, botões, colheres, canecos,

flanelas, lençóis, agulhas, chinelos,

brinquedos, moedas, um velho holofote,

lutou contra todos, virou Dom Quixote…

Com lixo a empreitada pode terminar.

Até que um anjo o veio buscar,

e aí, com meu Deus, fizeram parelha.

Saiu do hospício da Praia vermelha

cantando galope na beira do mar.

Fechando: quem quiser saber quem foi o Bispo do Rosário basta dar um breve passeio pela Internet que irá encontrar uma infinidade de informações sobre esse grande brasileiro; quem tiver interesse em escutar a canção, é só se encaminhar para o spotify ou adquirir o CD Marco do Meio Dia que será vendido no bazar à preço de banana; quem tiver vontade de aprender um pouco mais sobre rimas e versos, é comigo mesmo! Sou o cara! Estarei no primeiro semestre no Brincante ensinando como se escreve e se tira de improviso emboladas, galopes, sextilhas, etc. e etc.

Acompanhe a programação do Instituto para 2017. Brincante 25 anos.

Abraços,

Nóbrega, SPaulo. 1/11/16

PS: o ganhador do banjo será anunciado no lançamento do Bazar do Brincante, uma feira de CDs, DVDs e outras relíquias que fizeram os primeiros 24 de história do Instituto.

Bazar do Brincante
20 a 27/11
10h às 18h
Rua Purpurina, 412
Lançamento: dia 20/11 das 10h às 18h com canja do Nóbrega às 17h





“Volta Semba”…!

By Antonio Nóbrega | 22 setembro 2016 | Sem Comentários

Compartilho com vocês o texto que recito no show “Semba”. Criado por mim e pelo amigo e poeta Wilson Freire — valeu a paciência! — relatamos um pouco da história do samba nas estrofes abaixo.

Vim com os Negros.

Sou aquele Semba antigo,

no quadril e no umbigo

trouxe eu meu festejar.

Corpo com corpo

chacoalhando na umbigada,

na senzala ou na latada

eu aqui vim pra ficar.

Em toda festa

ritual e brincadeira

me esbanjavam a noite inteira

sem ter hora pra parar.

E com toadas,

palmas e tambor de mão,

bate-pé, poeira e chão

samba foram me chamar.

E em cada canto

onde eu me enraizava,

alguém me rebatizava

com algum nome do lugar:

Cateretê,

Caxambu e Bambelô,

Bate-coxa e Milindô,

e o Coco de embolar.

Mas quando um dia

aboliram a escravatura

e o café perdeu a brancura

que o dinheiro podia dar,

parti com os negros,

mamelucos e mestiços,

em bandos e em rebuliços,

pra no Rio vir morar.

E foi por lá,

nos saraus da Tia Ciata,

onde encontrei toda nata

do choro e do batucar:

o Pixinguinha,

o Sinhô, João da Baiana,

muito mais gente bacana,

todos iam para lá.

E pelas noites

de batuques sincopados,

saracoteios e gingados,

deram de me exaltar.

Me tornei gênero

de música e de dança

e foi dessa aliança

que virei ímpar, sem par.

O meu batismo

como Samba, o meu nome,

foi o “Pelo Telefone”

que o Donga foi registrar.

Mil novecentos

somando mais dezesseis

era o ano e a vocês

ainda eu posso vou contar.

Eu me firmei,

me espalhei pela Mangueira,

Catumbi e Madureira,

em Nilópolis fui pousar.

Mestre Cartola,

Candeia, Carlos Cachaça,

Noel Rosa, o boa praça,

viviam a me semear.

Aí virei

patrimônio coletivo.

E como sou hiperativo

vivo a me transfigurar.

Sou samba-choro

sou pagode e gafieira,

samba-enredo e uma fileira

de mais nomes vim ganhar.

E mais ainda:

sou a festa e a dor,

a tragédia e o amor,

todos vivem a me cantar.

Chico Buarque

e Paulinho da Viola,

João Bosco e a vida rola,

sou o samba e sou sem par.

Eu hoje sou

quase o “Juízo final”,

sou o “País Tropical”,

que não sei se “Vai passar”.

O “trem das onze”,

o “Mestre-Sala dos Mares”,

“Sonho meu”, outros olhares

eu ainda vou lançar.

Eu denuncio

a mentira, a injustiça,

a verdade me atiça,

nada ruim vai me deter.

Sou vigilante

da paz, da democracia,

dia e noite, noite e dia.

Eu não tenho o que temer.

Quem não viu o espetáculo Semba, que apresentei no Sesc Pinheiros de 27/08 a 05/09 — ou quem viu e gostou, bem que poderia começar um movimento direto e já: “Volta Semba”…!

 





S’ambora!

By Antonio Nóbrega | 25 agosto 2016 | Sem Comentários

Hoje, véspera da estreia do show “Semba”, que fica em cartaz desta sexta-feira, dia 26 de agosto até 04 de setembro no Teatro Paulo Autran — Sesc Pinheiros, compartilhamos com vocês o texto de Antonio Nóbrega que integra o programa do espetáculo, ilustrado por alguns registros fotográficos de Lenise Pinheiro, que acompanhou o processo do projeto “Do Semba ao Samba” desde 27 de julho.

“Não sabemos quando a palavra samba começou a circular. Uma data, todavia, marca o seu primeiro registro gráfico. Ela está no final de uma quadrinha escrita pelo frei Miguel do Sacramento Lopes Gama e impressa na revista O Carapuceiro, publicada em do dia três de fevereiro de 1836. É a seguinte:

Aqui pelo nosso mato,

que estava mui tatamba,

não se sabia outra coisa

que a dança do samba.

Embora já fizesse sucesso àquela época — como se deduz –, o samba ainda não era o samba com o qual geralmente o identificamos. Ainda não existia o samba… Samba!

Creio ser possível dividir a sua história em duas fases, apesar de ambas se fundirem. A primeira delas já se inaugura quando da chegada dos primeiros escravos traficados da Mãe África. Entre as práticas e costumes por eles trazidos estava o da umbigada, a semba — entrechoque da região umbilical entre pessoas de sexo oposto em certos momentos das danças rituais de casamento dos povos bantos. Desligada do antigo rito, a palavra semba entre nós transladou-se em samba, que veio, no geral, designar baile popular, cantoria, folguedo, etc. e, no particular, significar toda aquela manifestação de música e dança em que há cantos, tambores tocados com as mãos, palmeado, bate-pés, pessoas que dançam na disposição de uma roda dentro da qual uma dupla saracoteia, requebra, remexe e umbiga!

Pelo contínuo exercício e difusão dessa prática, foi se constituindo ao longo do tempo uma grande linhagem de manifestações que podemos denominar de família samba ou batuque. O Batuque de umbigada do interior paulista, o Samba de Roda baiano, o Samba de Parelha sergipano, o Coco nordestino, o Bambelô do Rio Grande do Norte, o Tambor de crioula maranhense, o Carimbó paraense, o Jongo fluminense, o Cateretê de Goiás, entre vários outros, fazem parte dessa extensa família.

Foram duas as causas através das quais ela se derramou pelo país. Uma delas foram os diversos ciclos econômicos — como cana de açúcar, mineração e café — ocorridos em diferentes épocas e regiões, que obrigaram obrigando o deslocamento da mão de obra escrava a cada vez que um deles expirava foi uma delas. A segunda, foi a presença de uma certa unidade cultural proporcionada pela extensa família banto desaguada no Brasil. A conjugação de ambas fizeram com que práticas semelhantes, mas não idênticas, na medida em que iam se encontrando uma com as outras, fossem gerando novos sotaques de sambas ou batuques.

Com a abolição da escravatura e derrocada do último dos grandes ciclos econômicos do país, o do café, um expressivo contingente de negros e mestiços de Minas e do Vale do Paraíba migra para a capital do país, Rio de Janeiro. A eles se unem outros da Bahia e de Pernambuco. Juntos, todos se fixam nas regiões centrais e portuária da cidade — Gamboa, Pedra do Sal, Saúde, Cidade Nova — e depois nos morros e nas suas encostas. É pelo entorno de algumas dessas regiões — a Pequena África chamada –, que irão proliferar as pensões ou casas de cômodos das famosas Tias baianas, e nelas as também famosas “sessões de samba”. E foi numa dessas sessões realizadas na casa da célebre Tia Ciata, que “nasceu” Pelo telefone, o “samba” que, registrado em novembro de 1916 na Biblioteca Nacional pelo compositor Donga, um dos frequentadores do local, fez o maior sucesso no carnaval de 1917.

O registro de Pelo telefone, em verdade, não marca o nascimento do samba mas, sem dúvida, demarca a época em que o gênero ganha os contornos da música e da dança com os quais se firmará no país.

Desta forma, síntese que fora de primordiais sambas e batuques, o nascente samba originará com o tempo novas variantes: samba-canção, samba-exaltação, samba de breque, samba-bossa nova…

Como se vê, uma história que continua e de tal riqueza sociocultural que me animou a idealizar e colocar em prática junto ao Sesc, o projeto Do Semba ao Samba, do qual este show Semba faz parte.

Posso elencar os motivos principais dessa empresa:

Um: face à invisibilidade por que culturalmente passa um certo e substancioso Brasil, tentar reavivar em nossa memória coletiva um pouco daquilo que somos e do que construímos por meio de uma de suas maiores expressões simbólicas talvez seja um bom tônico para auxiliar a reconstituição de nossa combalida autoestima coletiva;

Dois: a necessidade de relembrar que à margem do eixo civilizatório ocidental também há vida inteligente. Ou melhor, que existe um mundo novo que temos muita dificuldade em entender, aceitar, assimilar, acessar. O samba, apesar de toda sua majestade, é só uma ponta desse monumental aicebergue;

Três: escutar sambas como os de Ismael, Geraldo Pereira, Cartola, Nelson Cavaquinho, Noel, Chico, Paulinho da Viola e de tantos e tantos outros, é como frequentar um imenso orquidário de textos poéticos, ritmos, melodias por meio dos quais podemos aprender um pouco mais de nós e do mundo. Fazendo um trocadilho com o samba clássico de Paulinho da Viola que escutarão neste show, posso dizer que “as coisas estão no samba, só que precisamos aprender”;

Quase para fechar: o samba foi e ainda continua sendo um dos maiores porta-vozes das nossas dores, tristezas, asperezas e alegrias. Tem sido também uma altiva forma de denúncia das mazelas, desmandos e arbitrariedade de que sofre o povo brasileiro. Esse espírito, mais do que nunca, precisa ser reativado. No atual momento de nossa história, sobretudo política, esse é um dos meios de que disporíamos para gritar!.

Fora esses motivos, não sendo doente do pé nem ruim da cabeça — como todos, até certo ponto…, — cantar e dançar sambas me lava a alma!

Agradecendo ao Sesc pelo carinho, atenção e zelo profissional com que mais uma vez acolheu o nosso projeto e trabalho, convidamos, eu e a minha queridíssima turma de co-criadores e colaboradores, a nos acompanharem em mais uma jornada de regresso ao futuro.

S’ambora!

Antonio Nóbrega





Dos batuques primitivos ao gênero musical “samba”

By Antonio Nóbrega | 17 agosto 2016 | Sem Comentários

Em 1916, com o registro na Biblioteca Nacional da composição Pelo Telefone pelo Donga, se formaliza o nascimento do gênero musical — embora que ainda imaturo — que marcaria de modo indelével o semblante cultural do país. O gênero, denominado de Samba, graças e sua divulgação a partir da capital federal pela nascente rádio, veio entranhar-se no corpo e espírito nacional de tal maneira a dar origem a um tão vivo quanto fecundo imaginário cultural.

O que não sabemos é que ao lado do “gênero” samba, muitas outras formas de samba, que ainda se derramam pelo país, não ganharam igualmente as suas “cartas de alforria”.

Antes da palavra samba “instituir” o gênero com o qual hoje o identificamos, o nome era sinônimo de batuque, festa, brincadeira, baile popular, cantoria, pagode, etc. Esses batuques, bailes ou sambas são conhecidos, e praticados, ainda hoje em várias regiões do Brasil pelos nomes de Coco de Zambê, Samba de parelha, Tambor de crioula, Jongo, Batuque paulista, Calango, Carimbó, entre outros. São manifestações de dança e música que guardam entre si inúmeras características comuns, entre elas, e principalmente, a umbigada, a punga, ou como era chamada pelos primeiros escravos trazidos para o Brasil, a semba, de onde, portanto, Samba.

O projeto “Do Semba ao Samba”, que estamos fazendo no Sesc Pinheiros, através do seu amplo leque de atividades, tem como objetivo não só apresentar a arte do samba via espetáculo e aulas-espetáculos, como também proporcionar conversas por meio de mesa de debates e a sua vivência corporal e musical, via oficinas e sambadas.

Confira aqui toda a programação e vem com a gente.

Adicione no seu calendário os eventos que não quer perder clicando aqui.





Do Semba ao Samba é, também, um desejo de me tornar mais íntimo do meu País

By Antonio Nóbrega | 1 agosto 2016 | Sem Comentários

Desde que comecei a idealizar este projeto, “Do Semba ao Samba”, que teve início no dia 27/07 e e se estende até 04/09 no Sesc Pinheiros, perguntam-me (e eu mesmo me pergunto) por que decidi fazer esta incursão em um ritmo/gênero sobre o qual ainda não havia me debruçado tão profundamente.

Uma das respostas é que não sendo “ruim da cabeça nem doente do pé”, além de procurar ser um bom sujeito… gosto bastante de samba. Uma outra é que todos nós cantores, compositores e letristas brasileiros em alguma fase da carreira, temos o nosso momento samba. E o meu chegou! Aproveitei o clarão das comemorações seu do centenário — não é a primeira vez que me aproveito dessa data — para armar não só um espetáculo, que chamarei de Semba, mas um ciclo de atividades ligadas ao mundo Samba. Depois, venho de um longo período de criação de espetáculos ligados à dança e quis voltar para a música — não estarei abandonando a dança –, um território onde me sinto muito bem, seja como cantor, instrumentista ou compositor. Ao realizar um espetáculo com recorte no samba eu me derramo em tudo isso. Além do que, ando estudando com muito afinco o que chamo de “a questão cultural brasileira”.

Em tempos temerários temos de procurar entender melhor o nosso País…Acho até que as pessoas em geral estão com necessidade de se aproximarem um pouco mais Dele. As coisas nesses últimos tempos ficaram bastante feias! E o samba representa uma extraordinária forma de nos aproximarmos do País pela sua essência. A impressão que tenho é que escutando Noel Rosa, Ismael Silva, Ataulfo, Caymmi, Paulinho da Viola, Adoniran, Chico e tantos outros, o Brasil volta a ficar mais perto de mim.

Concluindo, o que me leva a realizar esse projeto são tanto razões como essas que acabo de alinhar, como também um certo desejo semi-inconsciente de me tornar mais íntimo do meu país, de melhor percebê-lo por dentro, pelo miolo.

Confira aqui toda a programação e vem com a gente: http://bit.ly/AgendaSemba

 





Eu e Naná

By Antonio Nóbrega | 10 março 2016 | Sem Comentários

Guardarei duas lembranças e uma música de Naná Vasconcelos para sempre: estou em Recife e recebo a notícia de que ele deixara a cidade para ir morar no Rio (depois deixaria o país); a outra: apresentando-me no show de abertura do carnaval de Recife em 2014, ano em que eu era o homenageado, recebo dele, que fora o do ano anterior, a placa da homenagem. Posso dizer que as duas lembranças fazem parte do lado imaterial, simbólico, afetivo que sempre guardarei de Naná; quanto à música, a carrego materialmente comigo. Ela é uma presença viva e quase constante no cotidiano exercício da minha dança. Sempre que quero fazer um passeio geral pela minha gramática corporal recorro àquela sua música de uma única e curta frase melódica, mas de ritmo forte e intenso com o mesmo poder de nos “agarrar” do Bolero de Ravel…

Vai-se um músico brasileiro. Um músico que para construir a sua obra — ganhadora de inúmeros prêmios e de honrosa fortuna crítica — teve de decantar um imaginário musical, sobretudo rítmico, que cada vez se nos foge, some, desaparece, melhor dizendo, cada vez mais é condenado à não-existência. Que outros termos poderemos usar para dar ideia da acachapante sobreposição, substituição ou apartaide imposto ao imaginário cultural brasileiro? Acompanhem-me: num curto espaço de tempo tivemos o Rock in Rio, Paul McCartney, os Rollings Stones; ainda para os próximos dias e semanas estão programados o Lollapalooza, o Iron Maiden, Cold play, festival Tomorrowland “Brasil” e por aí vai… Essas trupes aportam midiaticamente muito bem armadas. Chega a ser quase diabólica a engenharia e o poder de invenção de suas máquinas de divulgação. Os mais notórios jornais nacionais televisivos, revistas, jornais, rádios, redes sociais diuturnamente se revezam em noticiar suas apresentações.

E fato curioso: em tempos de crise lotam! Lotam. Li ontem que o preço do Lollapalooza para os dois dia é de R$ 800,00 contos! Lotam! Atentemos para o nome de algumas das poucas bandas “brasileiras” convocadas: Funky Fat, The Baggios, Dingo Bells… Não fosse essa invasão (há outra palavra?), e quase tudo que é tocado nos aeroportos, nas salas dos consultórios, nos programas das rádios, nas academias de esporte, nas trilhas das novelas, etc., de uma forma ou de outra, se intercomunica com esse imaginário. Ou seja o imaginário Brasil está sumindo do mapa e olhem que esse é o ano em que se comemora o centenário do samba. Alguém aí já ouviu os nosso grandes jornais, televisivos ou impressos cortejarem essa notícia? O samba vai dar em samba…Não assisto diariamente o programa de jornalismo das 22 h da Globo News, mas no mais das vezes que o vi, notei que ele é sempre finalizado com um clipe de alguma banda americana, inglesa ou assemelhada. Ei!? Nesse ano não poderia ser dada uma colherzinha de chá aos nossos grandes compositores de samba? Não há nenhum deles por aí que tenha pedigree para dar o ar de sua graça no programa?

A verdade é que estamos ficando cada vez culturalmente mais alienados. Parece que aspiramos em não ser o que somos. No mundo oficial da chamada música erudita coisa semelhante acontece. Pergunto: quantas orquestras sinfônicas subsidiadas pelo poder público ou empresarial existem no país? Talvez não fique longe de uma centena. Quantos grupos de choro ou de música instrumental à brasileira são subsidiados? Conheço alguns desses grupos, como a Orquestra Retratos (cordas dedilhadas) e a Spok Frevo orquestra, cuja qualidade inovadora dos seus trabalhos é inversamente proporcional aos subsídios que recebem — quando os conseguem via algum edital de cultura. Informo: isso não é xenofobia ou etnocentrismo às avessas de minha parte. Admiro muitíssimo a música de Stravinsqui, de Bach, de Mozart, acho um deleite escutar tanto sinfonias de Beethoven como canções de Bob Dylan, dos Beatles, etc. Mas o seguinte é esse: temos de ser bem mais a favor da música do Brasil, porque se não tivermos o zelo e cuidado que ela merece e precisa em breve desaparecerá, ou pelo menos muitas de suas qualidades.

Vai-se Naná Vasconcelos e com ele se apaga ainda mais um país que se esvai, que se contorce, que sangra… e que não consegue se repor. Não é simplesmente pelo fato de ser brasileiro que me determino a arrazoar do jeito que estou fazendo hoje aqui! Escrevo essas considerações porque percebo que o grande armazém, o nosso exuberante caldeirão de representações simbólico-populares — pulsos rítmicos, formas e gêneros poéticos, modos de atuação teatral, etc. e etc. — não é devidamente legitimado, reconhecido. É cada vez mais proscrito, isso sim! É uma lástima não conseguirmos dar ouvidos a pessoas como Mário de Andrade, Darcy Ribeiro, Ariano Suassuna, para citar alguns dentre os que já se foram, pensadores que se empenharam em entender e diagnosticar os nossos males e problemas culturais.

Não pensamos Brasil.

Será que nos contentaremos em ser eternamente o país da antropofagia (só se faz comer e não se digere, é…?), o país do carnaval, da geleia geral e do futebol que, felizmente, deixou de sê-lo?

Somos tão ocidentais quanto não o somos. Até o presente momento o mundo da cultura e civilização ocidental tem dado as cartas. Não é difícil constatar que esse sistema-mundo está longe de salvaguardar e preencher a totalidade das nossas necessidades humanas, sociais e culturais. Se o modelo ocidental fosse exemplar será que estaríamos onde nos encontramos? Não falo só do país, falo do planeta no seu todo, cujo modelo de civilização é sobretudo de base ocidental e androcêntrico.

No caso do nosso país a desproporção com que a nossa vertente cultural ocidental ou americanoeuropeia se sobrepõe à outra — índio-africana-ibérico-popular — é de atordoante violência. Esses dois mundos culturais precisam conversar de igual para igual. Não há saída. A arte é apenas um dos avatares desse processo.

Esse é o recado que há tempos Naná já havia me passado. Continuarei a escutá-lo e através de sua música a senti-lo. Com meu corpo.

Embalado por sua música danço como quem ri e quem chora.




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