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As redes estão livres. As ruas continuam abertas (ainda…)

By Antonio Nóbrega | 8 fevereiro 2017 | Sem Comentários

Quem me acompanha pelo Blog já deve ter notado que tem diminuído a frequência com que nele compareço com algum texto. É que tomei a decisão de só reanimar a minha presença nele após concluir um livro para o qual há anos venho reunindo pesquisas, anotações, reflexões e até demonstração prática via DVD. Se não tomar a atitude de dar foco especial a esse trabalho, correrei o risco de não concluí-lo à data aprazada.

Mas não é do livro que irei falar. Estou aqui em frente ao meu computador, no alvorecer do dia, rompendo momentaneamente o meu pacto, para, primeiramente, deixar derramar toda a minha contrariedade, frustação, desânimo, consternação, repulsa, asco, etc. etc. pelos fatos de natureza sobretudo política que vêm rasgando o nosso país e nos deixando atônitos, boquiabertos e sedados! O caldeirão de há muito que vem transbordando, mas o seu último enxurro veio com a “boa nova” de que o “presidente” do país – país? Que país? – indicou o atrapalhado e ardiloso Alexandre de Moraes para integrar o STF na vaga do Teori Zavaski. Tal decisão é de uma violência moral aterradora. Bastaria unicamente o fato de que um ministro da “justiça” de um presidente, 34 vezes citado num processo de delação, não poderia ser indicado por esse mesmo “presidente” a ocupar cadeira no tribunal que irá julgá-lo. É um descaramento total! E o pior: caberá a um senado cujo presidente atual e o anterior são também citados inúmeras vezes na mesma delação que atinge o “senhor presidente” a sabatinação! Despudor! E aí, caros? Onde ficamos nós nisso tudo? Com a mesma cara de pasmo, lesificados, com o estômago ardendo e a mente, aflita, latejando? Na expectativa de que algo milagrosamente possa cair do céu e arrumar a Casa Brasil, a pátria amada e cordial de sempre…?

Duvido que os membros do STF esbocem desacordo com a indicação. O caminho mais simples para que essa indecência fosse evitada seria a do próprio indicado seguir o que ele mesmo defende em livro que escreveu em 2000. Basta abri-lo – trata-se de tese de doutorado! – e reler o ponto 103 da conclusão: “É vedado (para o cargo de ministro do STF) o acesso daqueles que estiverem no exercício ou tiveram exercido cargo de confiança no Poder Executivo, mandatos eletivos, ou o cargo de procurador-geral da República, durante o mandato do presidente da República em exercício no momento da escolha, de maneira a evitar-se demonstração de gratidão política ou compromissos que comprometam a independência de nossa Corte Constitucional”. (Os originais da tese – um “tijolo” de 416 páginas – estão disponíveis na biblioteca da USP do Largo de São Francisco.) Embora não concorde com a ideia de que a judialização pública brasileira possa resolver todos os nossos males, o grau de indigência e venalidade alcançado pelo poder executivo e classe política brasileiras é de tal grau que pede, obriga o Poder Judiciário a não se acovardar diante dos fatos.

Quanto a nós, sociedade civil, e retomando, carece que a toda hora, a todo momento – mesmo quando transitoriamente nos afastamos do nosso foco individual de interesse e trabalho – manifestemos o nosso desacordo em relação às atrocidades que nos rondam. “Os mortos enterrem seus mortos, jamais a esperança” (Luz Natal. in Cántico. Jorge Guillén.) As redes estão livres. As ruas continuam abertas (ainda…). 

PS: acabei de aderir ao abaixo-assinado contra a indicação de Alexandre Moraes para o STF. Assine você também.

 

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Fora Geddel, fora anistia!

By Antonio Nóbrega | 20 janeiro 2017 | Sem Comentários

Com uma revolta mais contida, volto ao assunto que ontem catalisou todas as crônicas da segunda página do primeiro caderno da Folha de São Paulo e hoje, ainda na mesma página, duas. Foi também ontem, na mesma página, que pude entrar em contato com o esmerado postulado Temeano : “É preciso uma certa ladainha, é preciso repetir, você repete uma vez, duas vezes, três vezes, quatro vezes, como se faz nas missas, toda missa é igual porque você repete os conceitos. Isso vai entrando no corpo, no espírito e na alma.” Perceberam, o que temos como mandatário da nação?

Talvez seja o caso de repetirmos o seu axioma de forma reversa: invocando-o até a exaustão, uma vez, duas vezes, três vezes, quatro vezes, como ele aconselha e quem sabe dessa maneira não consigamos fazer o Geddel pular fora!

Ando realmente inconformado com esse pesadelo! Mas para que não se tenha a errônea impressão de que a minha e nossa revolta e grito é apenas a exteriorização de um simples e passageiro desconforto, basta ler o artigo do Janio de Freitas publicado hoje no mesmo jornal, para medirmos o tamanho da cratera que nos aguarda, caso não fiquemos em alerta máximo e não reajamos.

Não fosse isso, soube agora que a votação dos dez, doze artigos contra a corrupção foi adiada para terça da próxima semana. Até lá a “imaginação criadora” dos nossos congressistas certamente irá tentar desentranhar alguma mirabolante e obscura estratégia em prol da anistia dos “quem deve sempre teme ”. 

Fora Geddel

Fora anistia!





POR FAVOR, PARE, AGORA! SENHOR JUIZ, PARE, AGORA!

By Antonio Nóbrega | 16 setembro 2015 | Sem Comentários

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Não sei se recordam-se desse frase aí de cima. É o refrão daquela canção interpretada pela Wanderléa à época da jovem guarda. Lembro-me que a cantava com as minhas irmãs num conjunto musical caseiro que mantínhamos. Foi esse refrão que me veio imediatamente à lembrança domingo pela manhã quando li na Folha de São Paulo matéria sobre o salário dos desembargadores e juízes. Fiquei com o juízo meio derrubado ao tomar conhecimento da quantidade de “auxílios”, sete ao todo, que recebem juízes e desembargadores lotados no Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, segundo o jornal, o mais rico do país. Rico, realmente, porque o tribunal tem um Fundo Especial cuja arrecadação anual é de cerca de um bilhão de reais, dinheiro que deveria ser destinado a melhorias do próprio poder Judiciário. Pois bem, os R$ 4.377,00 de auxílio-moradia, mais R$ 1.825,00 de auxílio-alimentação, mais R$ 953,47 e R$ 953,47 de auxílio-creche e auxílio-educação, para o caso de terem filhos em correspondentes fases etárias, mais proventos extras por acumulação de cargos na ordem de R$ 15.235,00 e mais auxílio-funeral de R$1.800,65… irão somar-se ao seu salário base de R$ 30.000,00. É um pouquinho bão, né?

Aproveitei o ensejo da matéria e fui me informar adicionalmente. Tomei conhecimento (O DIA Rio, 03/06/2015) que uma juíza diretora do fórum recebeu em março a quantia de R$ 129.000,65, que um juiz da vice-presidência embolsou em fevereiro R$ 163.444,00 e que um desembargador, em janeiro, engordurou sua conta bancária com mais R$ 241.823,34…

É claro que se formos levar uma conversa, como se diz por aí, numa boa, com os senhores juízes e desembargadores, tudo isso será defensável, afinal eles estão longe de ganhar os supersalários embolsados mensalmente por um mar de gente por esse mundo aí afora, um mundo que, em vão, tantos de nós tentamos nos acomodar. Afinal nos ensinam que “o mundo é assim”!

Porque, ao que parece, toda essa gastança está dentro da lei, do direito! Dentro do que a Constituição permite, referenda! Ao invés de um ideal de justiça criamos foi uma fantasmagoria de justiça. É isso mesmo. Será que a legalidade jurídica legitima uma disparidade dessas? Uma tamanha disparidade, uma desconformidade com a realidade social do país. E aí, como mudar esse estado de coisas? Se a instituição que legisla o país abona esse tipo de conduta, como mudar esse sistema, um sistema-mundo, diga-se afinal, cujo único ou maior objetivo parece ser o de amealhar, lucrar, estocar! Quem não desconfia que posturas como essas só fazem encolher o nosso, já de si tão precário, espírito de compartilhamento, de justiça social? E do jeito que a carruagem anda, estamos já achando que comportamentos dessa natureza são absolutamente normais, como se fizessem parte do tabuleiro “natural” do jogo do mundo.

Ao final, a impressão que tenho é que a nossa animalidade – sem querer ferir os animais – ainda se sobrepõe demasiado à nossa humanidade. Não são tão relevantes os nossos progressos ainda. E aí? Conseguiremos nos reconfigurar, por dentro, antes que o estrago seja inevitável, e talvez até irremediável? Que energia teremos de realocar em nós para, transformando-nos, mudar a paisagem espiritual do mundo? Como quebrar a cadeia dos automatismos que nos conduz sempre em direção ao mesmo assíduo e confortável lugar? Não haverá outras instâncias confortáveis dentro de nós que, por não as frequentarmos, sentimos um enorme temor em experienciá-las? Outros estados mentais? Não haverá outros “chips” mentais dentro de nós? A ciência tão ciosa do “desenvolvimento humano”, porque não busca formas de nos ajudar a reeducar os nossos córtices cerebrais? É isso mesmo! Que novas conexões neuronais não estariam já prontas para desabrochar e florescer esperando só um “empurrãozinho” do espírito civilizatório? Já pensaram se acolhêssemos e cultivássemos – lembrando que cultivo e cultura têm a mesma raiz etimológica – uma forma de nos educarmos onde o senso de justiça e humanidade fossem tópicos absolutamente prioritários?! Uma nova maneira religiosa de viver a vida – um todo religado –, mas sem deuses. Chega de deuses! Nesse sentido não teriam os budistas através dos seus processos de meditação pistas a nos oferecer? O que dizer do exercício de um cristianismo sem mediação, terreno, vivo, “a la Francisco”, o nosso cara, hoje!

(Fico pensando se num gesto improvável, impensável, dificilmente possível, um desembargador ou juiz, ou alguns deles dissessem: – “Não! Vamos redirecionar um desses auxílios mensais para uma instituição de ensino “!” O que diria a Standard & Poor’s se atitudes-investimento dessa natureza pipocassem?)

Em todo o caso, enquanto tudo isso não deixe de parecer ficção científica ou utopia, ou sei lá o quê, não nos resta pedir, como na canção: senhor juiz, por favor, pare agora!





Singer, eu e a cantadeira

By Antonio Nóbrega | 24 março 2015 | Sem Comentários

Uma boa leitura para esta semana é a entrevista com o cientista político André Singer publicada neste domingo (22/03) no caderno “Ilustríssima”, da Folha de São Paulo. O tema da entrevista é a atual situação política e econômica do país e a presidente Dilma. Vários tópicos nos fornecem à abastança material para reflexão e discussão. Aproveito dois deles para dar fundamento ao meu pequeno texto de hoje.

Um deles diz o seguinte: “A classe média tradicional mostrou que tem horror à ascensão social dos pobres. É um fenômeno sociológico e político. Chega a ser uma rejeição ao próprio povo brasileiro”. Para mim essa é uma daquelas questões realmente essenciais, e precisamos compreender urgentemente as razões que levaram essa rejeição ao ponto em que chegou, pois, tanto no plano social quanto no cultural, ela só tende a nos afastar da compreensão de nós mesmos, fazendo retardar enormemente o nosso avanço em relação a uma nação mais justa e de todos.

As frases acima lembraram-me de um fato que ocorreu comigo. Na verdade, é uma pequena historieta que começa no dia em que uma musicista, ao me escutar cantar um romance* num recital aqui em São Paulo, ficou empolgadíssima com a música a ponto de me procurar depois da apresentação para saber como é que ela poderia ter acesso àquele tipo de música – que, segundo ela, era de muito refinamento. Disse-lhe que se tratava de uma recriação que fizera de um romance anônimo e popular que escutara de uma cantadeira nordestina. Curiosa, perguntou-me se eu ainda iria rever essa cantadeira e se, quando isso acontecesse, ela poderia me acompanhar. Fiquei surpreso com a sua disposição e lhe disse que, coincidentemente, iria voltar a vê-la em breve. A musicista não relutou em afirmar que estaria presente a esse encontro, mesmo sabendo que para isso teria de fazer uma viagem razoavelmente longa.

Não me recordo exatamente quantos meses se passaram dessa data até o encontro, mas o fato é que, no dia aprazado, nos encontramos na capital do estado de nascimento da cantadeira e rumamos para um município distante pouco mais de uma hora, onde ela morava e a escutaríamos.

À medida que o carro se deslocava do centro urbano da cidade para o pequeno município, a estranheza se plantava no rosto da musicista. A impressão que tenho é de que ela nunca visitara uma cidade do interior, e muito menos do nordeste… Chegamos ao município e logo rumamos para um sítio um pouco afastado dele. Lá, perguntei pela minha amiga cantadeira à meninada que já rodeava o carro, e imediatamente foram chamá-la. Ao vê-la aparecer, o rosto da musicista se transformou. A minha amiga cantadeira, uma negra, usava chinela Havaianas (mais para reciclagem do que para qualquer outra coisa), pitava um cachimbo e, ademais, tinha um certo jeitão serioso no olhar… Seguiu-se a apresentação entre ambas, a musicista cada vez mais dando sinais de estupefação. Conversamos alguma coisa e logo pedi à cantadeira que nos cantasse alguns romances. Normalmente ela cantava sozinha – a capela, como se diz – e fui de pronto atendido. Lembro-me de que ela cantou uns dez romances, pelo menos…

Provavelmente minha amiga musicista pensou que encontraria uma figura de cantadeira semelhante àquelas que o cinema edulcora quando quer revelar alguma cena ambientada na Idade Média. Ou pensava, talvez, encontrar alguma dessas cantoras de obras medievais que os CDs (na época em alta) apresentam em reconstituições de época em que tudo parece ser novinho, bonitinho, higienizado, sem ranhura ou ruído. A nossa cantadeira, pelo contrário, tinha uma voz rouca, não dispunha da maioria dos dentes, os cabelos encarapinhados eram pobremente cuidados e vez por outra ainda cuspia para os lados…

Mas foi a partir do momento em que a cantadeira começou a “tirar” os romances que o semblante da musicista deu uma guinada. À medida que a cantadeira cantava e que sua voz ia esquentando, o rosto da musicista também ia se transfigurando. Conforme ela ia entendendo os textos das narrativas, as formas estróficas em que eram cantados, o desenho das melodias, a rítmica sutil mas presente, os recursos de voz utilizados na cantarolagem dos versos etc.,  a sua disposição de espírito ia gradativamente se modificando. Uma aquiescente generosidade se instalava em seu rosto. Arrisco dizer que o que nela se passava era a descoberta de alguma  riqueza oculta que ela começava a perceber, riqueza esta, todavia, difícil de acreditar ser possível encontrar numa pessoa com aquela aparência e vivendo dentro daquele contexto social. Sua formação musical dava-lhe ainda preparo para entender os modos e escalas em que a cantadeira cantava os romances, a antiguidade e atualidade dos procedimentos por ela utilizados, os  fios temáticos das histórias.

Não me recordo se me encontrei novamente com a musicista. De qualquer forma, espero que, assim como para mim, momentos como aquele tenham lhe servido para perceber um pouco da questão da cultura popular brasileira, um assunto que me parece longe de ser levado a sério na dimensão que exigiria.

O outro tópico do artigo do Singer dispensa comentário e historieta: “Chegou a hora da grande política, em que os partidos precisam ser partidos, os estadistas, ser estadistas, e a sociedade vai testar o próprio grau de maturidade”.

 

Nóbrega

 

*Romance é o nome dado a histórias narradas e cantadas em versos. O nosso Romanceiro, nome dado ao conjunto dessas narrativas, é de origem ibérica e uma das manifestações formadoras da literatura de cordel.





Mario, o trezentão

By Antonio Nóbrega | 5 março 2015 | Sem Comentários

(sugestão da equipe: leia o post ao som de Truléu, Léu, Léu, Léu do disco “Na Pancada do Ganzá” (1995), dedicado a Mário de Andrade.)

“Recolhendo e recordando esses cantos, muito deles tosquíssimos, precários às vezes, não raro vulgares, não sei o que eles me segredam que me encho todo de comoções essenciais, e vibro com uma excelência tão profundamente humana, como raro a obra de arte erudita pode me dar.”

“Do fundo das imperfeições de tudo quanto o povo faz, vem uma força, uma necessidade que em arte equivale ao que é a fé em religião. Isso é que pode mudar o pouso das montanhas.”

 

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Os dois parágrafos acima foram escritos por Mário de Andrade, provavelmente em 1934. Eles comporiam o prefácio da coleção de registros e estudos que pensava publicar sob o nome de Na Pancada do Ganzá. Mário morreu há setenta anos e oito dias atrás, ou seja, no dia 25 de fevereiro, vítima de um enfarte fulminante aos 51 anos (sua obra entra em domínio público no ano que vem). Deixou-nos um extenso e precioso legado. Foi poeta, romancista, cronista, professor de música, ensaísta, missivista, gestor cultural, pesquisador e estudioso da cultura popular brasileira. Foi trezentos… Muitos de nós o conhecemos unicamente como o autor de Macunaíma, sem dúvida umas das obras fundamentais da literatura brasileira, mas eu, particularmente, tenho um apreço e admiração incomensuráveis  pelos seus estudos e escritos focados na busca de entendimento do papel da cultura – e em especial da cultura popular – no homem e no contexto da sociedade brasileira. Figuras como Mário de Andrade não são simplesmente para serem lidas, estudadas, admiradas e lembradas, são para serem colocadas em prática! E aí é preciso, antes de mais nada, conhecê-lo.

Jovens que frequentam os cursos e palestras que dou me pedem muitas vezes para indicar obras que os ajudem no entendimento do que chamo de a linha de tempo cultural popular. Vou aproveitar o ensejo deste artigo para, atendendo essa demanda, indicar alguns livros de Mário dedicadas ao tema. Eles ajudarão no conhecimento não só do autor e de sua obra como do Brasil. São elas:

Danças Dramáticas do Brasil (três volumes)

Os Cocos

As Melodias do Boi e Outras Peças

Aspectos da Música Brasileira

Ensaio sobre a Música Brasileira

Pequena História da Música

Dicionário Musical Brasileiro

Música de Feitiçaria no Brasil

Com a morte prematura de Mário, coube inicialmente à Oneyda Alvarenga, uma aluna e colaboradora dele, a organização da maioria desses livros. Para aqueles que lerão as Danças Dramáticas, eu recomendo que leiam e releiam quantas vezes sejam necessárias a Introdução (está no primeiro volume). Um texto, para mim, ainda completamente atual. Leiam todos os asteriscos e notas ligados aos seus textos. E não deixem também de ler  os apêndices que estão no final d’Os Cocos.

Para quem se interessar em aprofundar o conhecimento do escritor, de sua obra, do seu legado, uma visita ao Instituto de Estudos Brasileiros da USP (IEB) será fundamental. Todo seu acervo – originais, suas coleções e correspondências, etc. –  está lá e é lá, ainda, onde se encontra uma das maiores conhecedoras de Mário e de sua obra, a pesquisadora e professora titular Flávia Toni.

Vários livros já foram publicados sobre Mário e aspectos de sua obra. Eu tenho um especial apreço por um livrinho (magro de tamanho e gordo de “tutano”) do André Botelho, chamado Mário de Andrade – uma Descoberta Intelectual e Sentimental do Brasil. O título traduz à risca o livro. É uma publicação da Companhia das Letras (selo Claro Enigma) dentro da coleção “De olho em”.

Vou finalizar este artiguete com aquele mesmo poema do Mário com o qual o André concluiu o seu prazeroso livro.

EU SOU TREZENTOS

Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cinquenta,

As sensações renascem de si mesmas sem repouso,

Oh espelhos, oh Pireneus! Oh caiçaras!

Si um deus morrer, irei no Piauí buscar outro!

 

Abraço no meu leito as milhores palavras,

E os suspiros que dou são violinos alheios;

Eu piso a terra como quem descobre a furto

Nas esquinas, nos táxis, nas camarinhas seus próprios beijos!

 

Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cinquenta,

Mas um dia afinal eu toparei comigo…

Tenhamos paciência, andorinhas curtas,

Só o esquecimento é que condensa,

E então minha alma servirá de abrigo.

 

A Nobrega

 

 





Meu carnaval 2015

By Antonio Nóbrega | 12 fevereiro 2015 | Sem Comentários

Nesta sexta treze (…) estarei participando mais uma vez da abertura do carnaval de Recife. Ano passado, nessa mesma ocasião, recebia eu de Naná Vasconcelos a “faixa” de homenageado do carnaval, “faixa” que passarei na festa de abertura amanhã para o amigo Spok. Na verdade, essa homenagem dividi com o frevo, cujo reconhecimento como patrimônio imaterial da humanidade se dera em dezembro de 2012. Foi a partir de fevereiro de 2014, portanto, que eu e o frevo nos  enlaçamos num casamento cuja finitude mais próxima é a eternidade…Com a escolha de Spok para ser o homenageado do carnaval deste ano, esse laço se amplia transformando-se num grande e fraterno frevo-abraço que daqui envio para o amigo, literalmente, de vários carnavais, Spok. Com efeito, remonta ao ano de 1996 o nosso primeiro encontro, quando, em cima de um trio elétrico na avenida Boa Viagem, na semana pré-carnavalesca, nos juntamos pela primeira vez para tocarmos e cantarmos “a música pernambucana”. Esse fato foi o estopim de uma parceria que se concretizou em outros trios, espetáculos, Cds, Dvds, e viagens pelo país e fora dele. Portanto, razão tenho eu de sobra para desejar ao amigo o melhor carnaval do mundo…

E dele se tratando, digo do carnaval, irei novamente, e ainda, nele me apresentar nesse ano. Além da participação na abertura, farei quatros apresentações. Serão elas em Recife, no sábado e domingo, respectivamente nos polos de Jardim São Paulo e Arsenal da Marinha, sempre às 23:40h e, fora de Recife, uma em Olinda, na segunda, às 23h e uma outra em Paudalho, já na quarta, à 1h da manhã.

Para essas apresentações, e diferentemente dos anos anteriores, em que sempre privilegiei cantar e tocar a música carnavalesca pernambucana – em que pese uma certa indefinição dessa frase-conceito – nesse ano tomei a decisão de apresentar músicas minhas independentemente da ligação carnavalesca. As pessoas, principalmente de Recife, andam me solicitando cantar canções presentes em vários  espetáculos que criei e que raramente apresento em shows.

É o caso de músicas como Zumbi, Estrela D’alva, Foguete brasileiro, etc. Espero  atender, portanto, nos shows de carnaval desse ano, a demanda tanto desses pedintes-fãs, quanto, me desculpem a franqueza, a minha pessoal demanda, pois verdade seja dita, há algum  tempo que gostaria de reapresentar essas canções, cuja ocasião me parece ser, nesse carnaval, nos trinques!

Vamos ver se, além de mim e dos fãs, as demais pessoas que porventura os assistirão, irão concordar com a minha decisão.

Vou aproveitar, agora, ao finalizar, para convidar a todos para escutar uma dessas músicas, a Avenida Brasil, uma marcha-de-bloco composta por mim e pelo amigo-parceiro Wilson Freire onde casamos os bonitos nomes das ruas de Recife com as do bairro paulistano da Vila Madalena. Ela está em um dos Cds Nove de Frevereiro.

Segue a letra.

Rua Nova, rua Velha,

Purpurina, Chão de estrelas,

até quando ainda vou revê-las?

 

Madalena, porque choras?

Angustura, ai que Saudade,

que fizemos às cidades?

Piedade

 

Quero acordar, Aurora, no Largo da Concórdia,

subir Ladeira da Misericórdia.

 

Rua do sol, da União, do Futuro.

À deriva caminho, porto inseguro.

Não andar com Liberdade,

pelos centro e arrabaldes…

Dor que me atropela

sob a passarela

da Avenida Brasil.

Quem quiser ouvi-la direitinho é só ir para …o dropsitunestagflash

Nóbrega  

PS: O pessoal da minha comunicação pede pra dizer que aqui vocês encontram todos os meus canais digitais.

 





A água e a boca do vulcão

By Antonio Nóbrega | 5 fevereiro 2015 | Sem Comentários

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Abri a porta do box para tomar banho e me pus de pé dentro de uma bacia colocada bem embaixo do chuveiro. Abri a torneira e à medida que a água começou a me molhar fui logo xampuando os cabelos. Fechei o chuveiro e ensaboei-me todo. Abri novamente a torneira e enquanto a água escorria pelo corpo e cabeleira (…) retirando a espuma, aproveitei ainda para sabonetar o rosto…

Quando terminei toda a operação vi que a água acumulada na bacia já dava pelo começo da canela e que supriria por duas ou três vezes a demanda de água para usar na privada.

E fui me enxugando pensando-perguntando: se fôssemos educados  dentro dessa atitude desde o dia em que tomamos banho pela primeira vez, se aprendêssemos desde muito cedo que os “dons” da natureza não são  infinitos e que nascemos para viver gregariamente, não nos pouparíamos, nós a nós mesmos, do vexame que passaremos em breve, ainda nós, os moradores da cafeinada  cidade de São Paulo?

Tenho para mim que o caso da água é só mais um sinal de alerta sobre quão perdulária é a nossa maneira de conviver com natureza. Não creio que estejamos usando da melhor maneira possível os recursos de nossa inteligência, pois, ao que parece, inflacionamos desmesuradamente a nossa porção cerebral impulsionadora de atitudes e atos inconsequentes, excessivamente individualistas, estúpidos. No caso da água, é bem verdade que o nosso governador não deveria ter sido tão omisso e incivil.  Desmereceu a sua função de guardião do estado e da sua gente. Mas não creio que seja unicamente pela via política que a questão pode ser resolvida.

A questão em jogo é muito maior. É um problema de natureza também conjuntural. Um problema do sistema-mundo em que vivemos. Estamos nos educando muito insatisfatoriamente para o exercício da vida em comum! A educação tal como é modernamente concebida não parece querer levar em conta certos aspectos. Falta-nos dar um sentido maior e integral  à palavra educação. Caminhamos bem no quesito educação formal. De uma forma ou de outra – aqui, acolá – ela tem prosperado: aprendemos matemática, geografia, tocar um instrumento musical, a nadar, a passar no vestibular, etc. Mas…

Estou pensando numa educação que, embora converse com essa, a ultrapasse, a transcenda.  Estou pensando numa educação cultural, humanística mesmo, aquela que leve em conta valores, visão de mundo, sentimento gregário, planetização, etc., aquela que nos ajude a ampliar, abrir as nossas consciências face aos problemas que, não nos iludamos, se não soubermos tratar, nos levarão à ruína… Estou pensando numa educação que nos faça compreender que somos todos parceiros de uma mesma jornada planetária e que se não nos irmanarmos nessa jornada única – tão bela quanto árdua – estaremos fadados a sermos puxados, irremediavelmente sem retorno e remissão, para dentro da boca do vulcão…Pois estamos ao seu redor…

O mundo tal como o conhecemos está desmoronando. Que mundo queremos e podemos (re)construir? Que outra escala de valores teremos de assentar nessa diferente Escola-mundo que almejamos? Que novos exercícios de humanidade teremos de nos impor?

Eram essas as questões que me invadiam enquanto tomava meu banho matinal com menos de um quinto da água que habitualmente utilizava…

 





Um recital para Ariano

By Antonio Nóbrega | 12 janeiro 2015 | Sem Comentários

Já lá se vão mais de quarenta anos desde o momento em que Ariano convidou-me para integrar o Quinteto Armorial. Dessa ocasião até praticamente a sua morte, além da boa convivência e amizade que sempre cuidamos em manter, estabelecemos também um vínculo artístico que se materializou em algumas peças musicais.Essas músicas foram tanto diretamente referenciadas em suas obras literárias – particularmente na Pedra do Reino – quanto, de modo indireto, inspiradas nas prazeirosas conversas que tivemos ao longo dos anos. Não é por outra razão que a apresentação que farei no próximo dia 17 de janeiro, às 20h, no Theatro Municipal de São Paulo, como parte do projeto “Ariano Suassuna – Arte como Missão”  também se constitui  numa espécie de recital sentimental.

Um  recital composto de romances, poemas, martelos agalopados, excelências, toques instrumentais marcados  pelo visão de um homem do sertão. Ou melhor, pelo espírito de um homem que, juntamente com Euclides da Cunha e Guimarães Rosa, transfigurou uma região seca, áspera e pobre no “mundo mágico, onírico e redentor do Sertão”.Essa viagem musical vai passar pelos romances A Nau Catarineta, A Filha do Imperador do Brasil, A Morte do touro Mão de Pau, pelas canções O Rei e o Palhaço e Canudos, pelas peças instrumentais Rasga e Ponteio Acutilado, entre outras. Tais obras – presentes  nos meus Cds e Dvds – serão entremeadas por falas e pequenos relatos que marcam de alguma  maneira, a minha visão do Cavaleiro da Alegre Figura Ariano Suassuna.

Para esse recital estarei acompanhado por um  quinteto formado por Swuami Jr. nos violões, Filipe Maróstica no baixo, Léo Rodrigues na Percussão,  Olivinho no Acordeom e Zezinho Pitoco no clarinete, sax e zabumba.

Uma maneira emotiva de abrir artisticamente, para mim, o ano de 2015.

Theatro Municipal de São Paulo

Espetáculo musical com Antonio Nóbrega

17 de janeiro às 20h

Retirada de ingressos na bilheteria a partir das 18h

Valor do ingresso R$ 1

Duração – 1h45

Classificação 12 anos

Praça Ramos de Azevedo s/n – centro

Adicione na sua agenda Google.

 

 

 





Ficamos

By Antonio Nóbrega | 15 dezembro 2014 | Sem Comentários

Foto: Rogerio Vieira/Divulgação Auditório Ibirapuera

Foto: Rogerio Vieira/Divulgação Auditório Ibirapuera

 

Um ano! Esse é o prazo que temos para permanecer na rua Purpurina 428, local onde há 22 anos funciona o Instituto Brincante e onde, segundo o prazo que a compreensiva juíza nos deu, completará ainda o seu 23º ano de vida. A  nossa disposição a partir de agora é transferir o Brincante para apenas 10 metros, ou nem isso, de onde está.

Depois de vencido o desafio de ter a casa própria, há uns quinze anos atrás, resolvemos eu e Rosane adquirir as duas casinhas coladas ao Brincante. É lá onde funciona o escritório da nossa produtora, um pequeno centro de documentação e o local de guarda de nosso volumoso acervo. Pois bem, ambas casas têm uma área conjunta de 210 m2, espaço bem mais modesto que os 600 ocupados atualmente pelo Instituto. Daí que para essa transferência teremos de fazer uma muito funcional e inteligente reforma nas casinhas para que possam reabrigar tudo aquilo que cabe no Brincante e o faz funcionar.

Estamos animados. Sobretudo pelos bons sinais demonstrados pela  campanha do #ficabrincante. A partir de agora precisaremos mais de todos. Pois, como se diz por aí, o bicho vai pegar!

E para que esse bicho pegue de verdade, estamos realizando o nosso último ato cultural de 2014. Será no dia 20, próximo domingo (veja aqui o evento do Facebook). Vamos fazer nesse dia, novamente no parque Ibirapuera, em frente à parte externa do seu Auditório, a maior ciranda do mundo!… Uma celebração em forma de roda cirandeira acompanhada de show e da exibição do filme Brincante. Com essa programação estamos querendo agradecer aos amigos todos de todo o país,  especialmente aos paulistanos,  pela  demonstração de apoio, apreço e solidariedade dada ao #ficabrincante. Mas não só! Estaremos também reafirmando o nosso propósito em continuar a realizar espetáculos, produzir eventos, ações lúdicas e culturais, oferecer cursos e oficinas, dançar, tocar, brincar e a ajudar a renovar o homem…no “novo” Brincante. Ainda há muito sonho a realizar…! Pelos dias que o mundo vive, sonho humano é o que parece não fazer falta!

Será uma festa bonita. Tão bonita, certamente, como aquela que pretendemos realizar daqui a um ano na Vila Madalena.

Nessa ocasião, quem parar frente à Purpurina 416 vai se deparar com um quadro comovente e engraçado ao mesmo tempo: uma pequena, simpática e altaneira casinha, cercada, quase engolida, por um carrossel de apartamentos, estará dando o ar de sua graça e de seu esperançoso sorriso…Um sinal de resistência, sem dúvida – apesar do meu desconforto em usar essa palavra – mas sobretudo um sinal de que a estupidez e insensatez humana prevalece, mas não vence!

Ficamos!

 

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Com Passo Sincopado

By Antonio Nóbrega | 24 novembro 2014 | Sem Comentários

 

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Com Passo Sincopado é o nome da aula-espetáculo que idealizei para reunir alguns solos de dança e reflexões sobre as danças populares brasileiras, sobre dança e cultura e sobre uma dança brasileira a que vou dando largas à imaginação…
Tanto quanto a música, a dança teve um poder irresistível sobre mim. Isso eu percebi logo quando a descobri, na década de 70, em Recife. Tomei conhecimento dela informalmente, aprendendo passos e movimentos por meio dos artistas populares da minha cidade. De tanto praticar diversas danças populares, terminei por incorporá-las ao meu universo de criação e hoje, procurando entender de onde provém o seu rico imaginário – passos, saltos, giros, saracoteios, gingados, etc. – vejo que essa busca me oferece caminhos e boas pistas para melhor entender o meu país.
E nem só para isso. Sinceramente falando, acho que a prática lúdica da dança nos ajuda em várias outras coisas. Do mesmo modo que a prática da música ou da poesia favorece o nosso desenvolvimento mental, ampliando e fortalecendo a nossa caixa cerebral de conexões neuronais, a dança também tem esse papel, só que com mais alguns outros valores agregados. Por exemplo: através de sua prática pode-se queimar boa parte do excesso de gordura ou triglicérides que porventura se tenha…, algo que com o exercício da poesia ou da música é muito difícil de se fazer, a não ser que, no caso dessa última, você passe dez horas por dia batendo e pinotando com um tambor de maracatu pesando sobre as costas! Um outro valor adicional da dança é que ela tem uma enorme função socializante e gregária. Se dança mais em conjunto ou em dupla do que solitariamente. E ainda mais: a dança é um excelente modo de “serotonizar” o organismo, de ajudar a aumentar a concentração de serotonina no nosso corpo. Portanto, amigos, dancemos, serotonizemo-nos todos! Muita coisa a mais pode ser dita sobre a dança, mas para que eu não esgote o meu assunto hoje aqui, convido-os a assistirem o meu Com Passo Sincopado. Estarei rodando com essa aula-espetáculo por aí, mas quem estiver em São Paulo na próxima sexta, dia 28, e quiser assisti-la, estarei apresentando-a no Auditório István Jancsó da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (BBM) da Universidade de São Paulo (USP) às 17h. É só chegar.
Até lá.

Nobrega




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