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SEMBA E OUTROS SAMBAS

By Antonio Nóbrega | 2 maio 2017 | Sem Comentários


Semba, o espetáculo que criamos juntos eu, músicos e dançarinos em fins de 2016, retorna para mais duas apresentações no Auditório do Ibirapuera nos dias 13 e 14 de maio. Assim como me vali do ensejo de comemoração dos centenários do Frevo ­(2007) e do nascimento de  Luís Gonzaga (2013) para criar espetáculos que reafirmassem dois gêneros fundadores da música e dança brasileiras – frevo e  baião – aproveito o biênio 2016/17 para homenagear, tocar, dançar e cantar samba. Como um dos orgulhosos criadores de Semba, opino que é absolutamente impossível (!) alguém desgostar de um espetáculo que relembra canções de Noel, Geraldo Pereira, Ismael, Caymmi, Chico, Paulinho da Viola, reinterpretadas pela “humílima e genial figura” que vos fala (!),  recriadas em inspirados arranjos de Edmilson Capelupi e Edson Alves e dançadas em líricas e modernas coreografias criadas e interpretadas por um afiado grupo de bailarinos liderado por Maria Eugênia de Almeida. Portanto, pessoas todas, ao Auditório!

Dito isso, deixando-me levar pelo embalo da escrita, instigado pelo mal-estar geral da nação, e solicitando um tiquinho a mais de sua generosa atenção, aproveitarei ainda para elencar e comentar sucintamente algumas ocorrências desses nossos Temerários dias. O simples fato de tomar conhecimento delas tem me levado por vezes a um tal desmantelo por dentro que, em estado de abobalhada ruminação, fico buscando as “ontológicas” razões pelas quais chegamos a tal desarranjo.

Lá vão:

1

As desoladoras declarações dadas pelo misantropo Charles Cosak sobre sua gestão à frente da biblioteca Mário de Andrade.

Sua atitude em desfavor do samba e do choro – e não é chorinho!!!, que rima com jeitinho, bonitinho, tadinho…: o gênero chama-se Choro! – é preconceituosa e e desaforada, sobretudo por se tratar de um gestor cultural que está à frente de uma instituição que tem como patrono Mário de Andrade. Para fortalecer o meu ponto de vista, aconselho a leitura da crônica do escritor Lira Neto que, estreando domingo coluna na Folha de São Paulo, argumenta nessa mesmo direção.

2

A enviesada cobertura dada pela grande mídia à greve geral.  Por meio da mídia de maior alcance, aquilo que foi acidental tornou-se emblemático. Eu que acompanhei pela Av. Pedroso de Morais o grande cordão de manifestantes – cortejo de pelo menos dois quilômetros – posso afirmar que foi tranquilo, dançável até, e, como se diz, ordeiro. Não acho que a presença dos chamados Black blocs (?), ao final, deslegitimou o movimento. Embora vandalismo e quebra-quebra sejam sempre condenáveis, nem sempre são de todo incompreensíveis. Para um governo de tal maneira desorientado e ilegítimo, cujo representante tem a pachorra de afirmar que estamos saindo da recessão no mesmo dia em que é publicada a taxa de desemprego do último trimestre informando que ela atingiu o seu maior patamar, fazem atitudes como a dos arruaceiros parecer não ser tão inadmissíveis! Vale à pena a leitura do comentário da ombudsman Paula Cesarino Costa, da Folha, também publicada no dia 30 de abril.

3

A instabilidade emocional dos integrantes do STF, cuja liderança tem se mostrado frágil. Os ministros falam quando bem lhes apetece, em especial o Gilmar Mendes que, à semelhança de um velho e pastoso coronel, faz e fala o que quer e quando quer. A sua última arbitrariedade foi dar tratamento diferenciado ao apaniguado Aécio Neves permitindo que a sua defesa tivesse acesso, antes do seu interrogatório, aos depoimentos dados por delatores nas investigações sobre a propinagem de Furnas. Se não é ilegal, vai de encontro aos procedimentos habituais da Polícia Federal.

4

A vitória no Congresso da reforma trabalhista e a minha impossibilidade de aceitar mudanças que privilegiam tão abertamente a classe patronal em detrimento da trabalhadora. Atenho-me a dois pontos que, no meu entender, fragilizam a classe dos trabalhadores: a pauperização dos sindicatos, via desobrigação da contribuição sindical (o equivalente a um dia de trabalho anual) e a ausência do estado legislador entre patrão e empregado. Hipoteticamente viver em um Brasil onde sindicatos e empregadores pudessem negociar livremente seria o ideal, mas a nossa performance social, como sabemos, é obscena. Ausentar a mão legisladora do estado é fortalecer ainda mais o patronato e, de resto, as vorazes forças do capital. Ademais, podemos colocar o negociado acima do legislado? No caso brasileiro atual, afirmar essa disposição não seria socialmente retroagir?

 

A atual paisagem política e social Brasileira é desencantadora. Mas apesar de tudo, apesar da constatação de que o fim desse túnel de frustações está longe de ser vislumbrado, ainda creio que é possível nos agarrarmos a um fiapo de esperança. Uma frágil esperança, sim, mas que poderá se robustecer, na medida em que nos dispusermos a tentar entender verdadeiramente um país cujos infortúnios do momento, podem ser justamente as senhas para dar a volta por cima e entrar no futuro.

 

Nobrega

 

 

 

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