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Singer, eu e a cantadeira

By Antonio Nóbrega | 24 março 2015 | Sem Comentários


Uma boa leitura para esta semana é a entrevista com o cientista político André Singer publicada neste domingo (22/03) no caderno “Ilustríssima”, da Folha de São Paulo. O tema da entrevista é a atual situação política e econômica do país e a presidente Dilma. Vários tópicos nos fornecem à abastança material para reflexão e discussão. Aproveito dois deles para dar fundamento ao meu pequeno texto de hoje.

Um deles diz o seguinte: “A classe média tradicional mostrou que tem horror à ascensão social dos pobres. É um fenômeno sociológico e político. Chega a ser uma rejeição ao próprio povo brasileiro”. Para mim essa é uma daquelas questões realmente essenciais, e precisamos compreender urgentemente as razões que levaram essa rejeição ao ponto em que chegou, pois, tanto no plano social quanto no cultural, ela só tende a nos afastar da compreensão de nós mesmos, fazendo retardar enormemente o nosso avanço em relação a uma nação mais justa e de todos.

As frases acima lembraram-me de um fato que ocorreu comigo. Na verdade, é uma pequena historieta que começa no dia em que uma musicista, ao me escutar cantar um romance* num recital aqui em São Paulo, ficou empolgadíssima com a música a ponto de me procurar depois da apresentação para saber como é que ela poderia ter acesso àquele tipo de música – que, segundo ela, era de muito refinamento. Disse-lhe que se tratava de uma recriação que fizera de um romance anônimo e popular que escutara de uma cantadeira nordestina. Curiosa, perguntou-me se eu ainda iria rever essa cantadeira e se, quando isso acontecesse, ela poderia me acompanhar. Fiquei surpreso com a sua disposição e lhe disse que, coincidentemente, iria voltar a vê-la em breve. A musicista não relutou em afirmar que estaria presente a esse encontro, mesmo sabendo que para isso teria de fazer uma viagem razoavelmente longa.

Não me recordo exatamente quantos meses se passaram dessa data até o encontro, mas o fato é que, no dia aprazado, nos encontramos na capital do estado de nascimento da cantadeira e rumamos para um município distante pouco mais de uma hora, onde ela morava e a escutaríamos.

À medida que o carro se deslocava do centro urbano da cidade para o pequeno município, a estranheza se plantava no rosto da musicista. A impressão que tenho é de que ela nunca visitara uma cidade do interior, e muito menos do nordeste… Chegamos ao município e logo rumamos para um sítio um pouco afastado dele. Lá, perguntei pela minha amiga cantadeira à meninada que já rodeava o carro, e imediatamente foram chamá-la. Ao vê-la aparecer, o rosto da musicista se transformou. A minha amiga cantadeira, uma negra, usava chinela Havaianas (mais para reciclagem do que para qualquer outra coisa), pitava um cachimbo e, ademais, tinha um certo jeitão serioso no olhar… Seguiu-se a apresentação entre ambas, a musicista cada vez mais dando sinais de estupefação. Conversamos alguma coisa e logo pedi à cantadeira que nos cantasse alguns romances. Normalmente ela cantava sozinha – a capela, como se diz – e fui de pronto atendido. Lembro-me de que ela cantou uns dez romances, pelo menos…

Provavelmente minha amiga musicista pensou que encontraria uma figura de cantadeira semelhante àquelas que o cinema edulcora quando quer revelar alguma cena ambientada na Idade Média. Ou pensava, talvez, encontrar alguma dessas cantoras de obras medievais que os CDs (na época em alta) apresentam em reconstituições de época em que tudo parece ser novinho, bonitinho, higienizado, sem ranhura ou ruído. A nossa cantadeira, pelo contrário, tinha uma voz rouca, não dispunha da maioria dos dentes, os cabelos encarapinhados eram pobremente cuidados e vez por outra ainda cuspia para os lados…

Mas foi a partir do momento em que a cantadeira começou a “tirar” os romances que o semblante da musicista deu uma guinada. À medida que a cantadeira cantava e que sua voz ia esquentando, o rosto da musicista também ia se transfigurando. Conforme ela ia entendendo os textos das narrativas, as formas estróficas em que eram cantados, o desenho das melodias, a rítmica sutil mas presente, os recursos de voz utilizados na cantarolagem dos versos etc.,  a sua disposição de espírito ia gradativamente se modificando. Uma aquiescente generosidade se instalava em seu rosto. Arrisco dizer que o que nela se passava era a descoberta de alguma  riqueza oculta que ela começava a perceber, riqueza esta, todavia, difícil de acreditar ser possível encontrar numa pessoa com aquela aparência e vivendo dentro daquele contexto social. Sua formação musical dava-lhe ainda preparo para entender os modos e escalas em que a cantadeira cantava os romances, a antiguidade e atualidade dos procedimentos por ela utilizados, os  fios temáticos das histórias.

Não me recordo se me encontrei novamente com a musicista. De qualquer forma, espero que, assim como para mim, momentos como aquele tenham lhe servido para perceber um pouco da questão da cultura popular brasileira, um assunto que me parece longe de ser levado a sério na dimensão que exigiria.

O outro tópico do artigo do Singer dispensa comentário e historieta: “Chegou a hora da grande política, em que os partidos precisam ser partidos, os estadistas, ser estadistas, e a sociedade vai testar o próprio grau de maturidade”.

 

Nóbrega

 

*Romance é o nome dado a histórias narradas e cantadas em versos. O nosso Romanceiro, nome dado ao conjunto dessas narrativas, é de origem ibérica e uma das manifestações formadoras da literatura de cordel.

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