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Inauguração do Paço do Frevo

By Antonio Nóbrega | 17 fevereiro 2014 | Sem Comentários


Amigos queridos, compartilho com vocês o texto que escrevi para a inauguração, em Recife, do Paço do Frevo.

Paço do Frevo – Apresentação from Luis Marcelo Mendes on Vimeo.

“Fico agradecido ao senhor prefeito Geraldo Júlio pelo convite que me fez para proferir algumas palavras nesse evento de inauguração do Paço do Frevo. Com esse convite renovo o meu agradecimento a ele e à secretária de cultura municipal, Leda Alves, pela distinção de ser, juntamente com Frevo, o homenageado do Carnaval de 2014. Me permitam dizer que foi uma honraria que considerei tanto individual quanto coletivamente, porque ao recebê-la é como se estivessem comigo, bem aqui meu lado, aquela imensa legião de compositores, passistas, músicos e cantores que tanto admiro e que desde o alvorecer do século XX até os dias de hoje, vieram decantando e dando forma ao que entendemos e chamamos de frevo.
Uma outra razão para ainda agradecer-lhe o convite é ter a oportunidade de, publicamente e segundo o meu ponto de vista, reforçar o significado e a responsabilidade dessa inauguração. Digo sempre que o frevo transcende os limites de uma simples manifestação cultural. Prefiro denominá-lo de uma instituição cultural. Não preciso repetir aqui as formas ou gêneros em que essa instituição se dinamiza. Mas aquilo que talvez necessite ser lembrado é que a teia, a rede, a urdidura e cruzamento do material simbólico que lhe deu origem e fundamento – ritmos, danças, cantos que se perdem pelas Idades do mundo – se confunde com a própria história do Brasil. Uma história que se desenvolve dentro do Brasil periférico, pobre, marginal, mal compreendido e culturalmente folclorizado. Ouvimos muitas vezes dizer que o Brasil é uma soma de vários Brasis. Me permitam ainda, discordar dessa opinião pois penso que o que chamamos de Brasil não é mais do que a reunião de apenas dois e únicos Brasis: o do primeiro andar e o do andar de baixo ou do sótão! Há historicamente um Brasil socioeconômico e cultural subalternizado e foi esse Brasil que, prevalentemente, nos deu samba, baião, choro e o frevo, para só me referir à algumas manifestações da cultura imaterial. Esses gêneros ou manifestações culturais foram se constituindo, repito, no subsolo, a despeito de toda força contrária, fundamentalmente por negros, índios, mulatos e ibéricos não pertencentes à classe hegemônica e dominante. Para que essas preciosas manifestações ganhassem corpo e alma uma monumental inteligência e energia criadora intuitiva e inconscientemente foi mobilizada. Está na hora de descobrirmos que força é essa. De onde ela provém. Entendermos o seu poder transformador e revolucionário. Que força é essa que tão voluptuosamente se despeja na hora de bater um tambor, de cantar, de tocar, de dançar e brincar? Essa Casa – esse Paço do frevo – tem de compreender de onde ela vem, de saber canalizá-la, essa Casa tem de ser a usina e represa dessa grande hidroelétrica frevo. Ela tem de ser o dinâmico e transcendente reflexo dessa força. Penso que ao compreendê-la teremos em mãos um rico e fecundo caminho para vencermos vários de nossos desafios, e que não dizem respeito unicamente à arte e cultura.
Senhores: podemos transformar esse espaço, esse Paço num local exemplar de Brasil. Um lugar não só de busca, pesquisa, prática e experimentação artística, mas, sobretudo um território de vivência de novas práticas de relações, procedimentos e integração humanas. Além do frevo-de-rua, da dança do frevo, do frevo-canção e do frevo-de-bloco o oceano frevo tem um mar de rios para colaborar no desenvolvimento de nossa humana imaterial e material educação. Educação eis uma palavra chave. Se tivermos a suficiente compreensão do significado e alcance sociocultural dessa grande Instituição Frevo poderemos transmudar sua imaterialidade em matéria viva e operante dignificando a sua alegre, bela e explosiva humanidade.” Sugiro que acessem o site do Paço do Frevo para conhecer mais sobre o museu.

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