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Nascimento do Brincante VII: Tonheta e o velho Faceta

By Antonio Nóbrega | 6 janeiro 2014 | Sem Comentários


Estreamos o espetáculo Brincante em março de 1992 no I Festival de Teatro de Curitiba. Entre a jornada Dimitri e essa estreia já tinham se passado seis anos. Ao longo desse período fui procurando organizar as ideias do espetáculo que teria como coração a figura de Tonheta, personagem que há muito vinha pulsando e se desenhando dentro de mim.
Vale a pena discorrer um pouco sobre a razão desse nome para o meu personagem. Em Recife, onde, como se diz, nasci e me criei, um Antonio, normalmente, desemboca em Toinho, assim como, em São Paulo, em Toninho. Pois bem, esse Toinho que aqui vos escreve, tinha o hábito de frequentar as apresentações do Pastoril do Velho Faceta, realizadas pelo verão no Janga, localidade praiana pernambucana do litoral norte a que se chega depois de atravessar toda a cidade de Olinda. Para quem não conhece, o Pastoril é um dos espetáculos populares nordestinos presentes no ciclo natalino, acontecendo suas apresentações de meados de dezembro até o dia seis de janeiro, dia de Reis. De origem portuguesa, é constituído de uma sucessão de pequenos bailados-pantomimas, animados por marchas, loas e cantigas simultaneamente cantadas e dançadas por “pastorinhas” que, divididas em dois cordões, o azul e o encarnado, louvam o nascimento do menino Jesus e a chegada dos três reis magos. Pastoril de Ponta-de-rua, Profano ou de Velho são nomes dados à sua versão cômico-profana. Nele, um personagem com o rosto pintado, portando uma bengala retorcida, cheio de gracejos e danças mugangueiras, fazendo-se acompanhar por um conjunto de “pastoras” mais liberais no quesito indumentária e na maneira de dançar, tirando cocos, marchinhas e cançonetas licensiosas, entretém uma variada plateia noite à dentro. Foi esse Velho Faceta – segundo uns, Constantino Leite Moisakis e segundo outros, Jones Francisco da Silva – que durante vários anos acompanhei em andanças e apresentações. E por conta das imitações que dele fazia vez por outra, ganhei o honorável apelido de Tonheta. Está aí, portanto, a genealogia “profunda” do nome do meu estupendo personagem…
Era para um espetáculo de natureza teatral a ele principalmente dedicado que há muito tempo eu vinha anotando em cadernos ideias, trechos de obras literárias, histórias cômicas e picarescas populares, entremeios de espetáculos populares, situações que presenciava, notícias jornalísticas, etc. Uma espécie de caderno-ideário “tonhetânico” geral através do qual eu ia esboçando uma epopeia-bufônica tendo o industrioso Tonheta como o seu herói-bufão. Esse grande armazém de rascunhos seria o ponto de partida para a criação das esquetes, danças, pantomimas, músicas cantadas e tocadas, etc., que dariam corpo ao(s) espetáculo(s) a ele dedicado(s).
Mas como seria narrada essa epopeia? Qual a forma de apresentá-la? É aí que entram em cena Rosane, Bráulio Tavares e Romero de Andrade Lima. Rosane já desde o espetáculo O Maracatu Misterioso – com o qual viemos para são Paulo – vinha me ajudando tanto como atriz quanto como conselheira artística geral. Bráulio Tavares eu conhecera em Campina Grande quando, integrando o Quinteto Armorial que por lá se fixara, ia eu semanalmente à cidade para ensaiar ou me apresentar com o grupo. Tínhamos uma enorme afinidade artística, sobretudo no campo do cômico, pois assim como eu tinha criado o meu personagem Tonheta, ele tinha também inventado o seu: Trupizupe, o Raio da Silibrina. Enquanto o meu tinha como fonte principal de referência o universo dos palhaços presentes nos espetáculos populares – Mateus, Velhos de Pastoril, emboladores e palhaços circenses – o dele se referenciava sobretudo na rica galeria dos personagens picarescos que inundavam as histórias da literatura de cordel. Romero de Andrade Lima era um artista plástico a quem eu tinha uma enorme admiração. Numa ocasião seu tio, Ariano Suassuna, mostrou-me uns desenhos e pinturas suas que muito me impressionaram.
E foi com essa trinca de ouro que montei o Brincante.

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