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Nascimento do Brincante VI – Dimitri

By Antonio Nóbrega | 5 dezembro 2013 | Sem Comentários


Guardo boas lembranças do mês que passamos em Verscio: do pão matinal da pousada onde ficamos; das peras, ameixas e figos que, dependurados dos galhos que ficavam para fora das cercas e muros das casas, impedíamos que apodrecessem…; dos encontros entre alunos aos domingos à tarde após a exaustiva semana de práticas; dos espetáculos de Dimitri e da Companhia Dimitri; das boas conversas com Alessandro Marchetti, amigo e mestre-professor de Commedia dell’arte.
A rotina diária começava cedo pela manhã e era marcada por aulas e treinos de acrobacia, malabares e funambulismo (andar no arame) e pela montagem de uma obra de Goldoni à maneira da Commedia dell’arte. A Escola contava com bem equipadas salas de treinamento, dois teatros, um agradável refeitório, uma biblioteca, uma videoteca e salas administrativas. Hoje também abriga um “Museu da Palhaçaria”. Fundada por Dimitri e sua mulher Gunda, era a única em toda a região do Ticino.
O que mais me seduzira em Dimitri como artista, fora a sua versatilidade e o modo como soubera canalizá-la para a arte da Palhaçaria. Era mímico – estudara pantomima com Marcel Marceau – cantava e tocava instrumentos de corda e de sopro – clarinetes e saxofones de todos os tamanhos – fazia o que queria no arame e era um excelente acrobata. Na ocasião rodava pelo mundo apresentando três espetáculos que criara e que continuavam em repertório. Três solos através dos quais despejara, em boa medida, muito do que queria dizer pela arte do palhaço. Como conseguira organizar, dar unidade e sentido a todas aquelas habilidades? Essa era a grande pergunta que eu me fazia e que, no fundo, fora a razão pela qual eu tinha inventado aquela jornada até Verscio.
Não foi muito tempo depois que vim perceber que duas grandes forças se aliavam para que ele pudesse realizar aquela façanha: a sua capacidade e engenhosidade criadora e a vigorosa tradição cultural do cômico europeu. Fora dentro dessa tradição cultural, povoada de personagens da Commedia dell’arte, palhaços da comédia circense e mímicos da pantomima teatral e do cinema mudo da primeira metade do século XX, onde o gênio inventivo de Dimitri pode encontrar a matéria-prima através da qual pode construir as esquetes, cenas, entrechos e procedimentos teatrais que inundavam os seus espetáculos.
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Aquela passagem pela Escola e Teatro Dimitri fazia ressurgir em mim um mundo de questões: onde estaria o meu/nosso chão cultural coletivo? De que estaria constituída a nossa brasileira argamassa cultural? Qual a consciência que tínhamos de nossa cultura? Sabemos que não somos, nem cultural nem etnicamente, genuínos ocidentais. Sabemos que índios, negros e ibérico-mediterrâneos – nunca é pouco lembrar – colaboraram fundamentalmente na “substanciação” do nosso massapê étnico-cultural. Mas como trazer essa compreensão à consciência do brasileiro com a força que – penso eu – se faz necessária? Percebi que, embora o meu campo de batalha continuasse sendo o da realização artística, essas perguntas iriam sempre fazer parte do meu itinerário intelectual e que eu sempre me sentiria instigado a tentar respondê-las. A “jornada” Dimitri agudizara a minha percepção do problema cultural brasileiro e me incentivava a levar adiante questões que só com o tempo eu poderia responder.

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Quando deixamos a Escola e Teatro Dimitri nos primeiros dia de agosto, após um mês de rica experiência humana e artística, não sabíamos que seis anos depois algumas daquelas questões estaríamos tentando responder com o espetáculo Brincante.

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