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Nascimento do Brincante III – Bois e o Mateus

By Antonio Nóbrega | 30 outubro 2013 | Sem Comentários


Como eu dizia, os cantos, as danças, a maneira de representar dos artistas populares me pegavam de tal jeito que logo vi que tinha de desaguar de alguma maneira aquilo que aprendia. Foi por essa razão que criei sucessivamente dois Bois: o da Boa Hora e em seguida o Castanho Reino do Meio Dia. Embora esses grupos de Bumba-meu-boi que idealizei fossem imitações do Boi Misterioso de Afogados do velho e famoso brincante popular Antonio Pereira, foi através deles que eu comecei a exercitar-me na função de ator e criador de espetáculos.
Juntei moças e rapazes amigos e da minha idade e começamos a nos reunir para aprender as loas, os toques instrumentais e o jogo teatral das diversas figuras. Tenho para mim que gostavam da ideia de tomar parte nesses “brinquedos” mais pelo espírito da festa e encontro social do que propriamente pelo exercício teatral. Eu é que, secretamente, encarava aqueles Bois como coisa muito séria…
Neles, além de organizá-los e dirigi-los ainda atuava na figura do Mateus. Para quem não sabe, Mateus é o nome dado a um misto de palhaço e bufão presente na maioria dos espetáculos populares. É uma figura de uma comicidade sobretudo corporal e gestual, contadora de facécias e tiradora de chistes. Pois bem, me identifiquei danadamente com ela. É por essa razão que a representava nos dois Bois que criei e nos espetáculos teatrais que posteriormente realizei – Figural, Brincante e Segundas Histórias – ela foi recriada com o nome de Tonheta. Para essa recriação, além de, naturalmente, me aprofundar no cômico popular, procurando assimilar e mastigar o seu amplo universo, me interessei também em estudar e aprender os procedimentos dos cômicos do cinema mudo como Chaplin e Buster Keaton, dos chanchadeiros brasileiros Oscarito, Grande Otelo e Zé Trindade, dos cômicos das comédias cinematográficas Cantinflas e Totó. Além do que, interessei-me também pelo universo do Arlequim da Comedia dell’arte e da Palhaçaria em geral estudando a vida e a arte de palhaços como Grock, os Irmão Fratellini e Dimitri, um “clown” que tive a felicidade de tomar conhecimento numa aula de mímica dada por Denise Stoklos. Foi ela que mostrou-me o seu livro Album Dimitri. O livro informava também que ele dirigia com sua mulher, Gunda, um teatro-escola em Verscio, na parte italiana da Suiça. O resultado desse conhecimento é que encasquetei em conhecê-lo e fazer um curso na sua escola. Para contar como isso aconteceu vou ter que novamente adiar o fim desse relato brincântico.
No próximo texto contarei as peripécias que tivemos de fazer para, numa noite de 1990, bater eu e Rosane com os costados em Verscio.

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